Energias renováveis em foco
Riscos da emergência climática
Em um minuto:
- As energias renováveis estão em expansão, mas são vulneráveis a secas, ondas de calor, incêndios florestais e outros eventos climáticos extremos.
- Os riscos associados à emergência climática afetam tanto a geração (fotovoltaica, eólica e hidrelétrica, por exemplo) quanto a transmissão e a distribuição, ameaçando a segurança energética.
- A resiliência do setor de energia depende de soluções como o planejamento em longo prazo, armazenamento, redes inteligentes, seguros climáticos e diversificação da matriz.
A transição energética é apontada como uma das soluções para enfrentar a emergência climática. Em 2022, quase 30% da eletricidade mundial veio de fontes renováveis, e os investimentos globais em novos projetos atingiram recorde de US$ 386 bilhões no primeiro semestre de 2025, aumento de 10% em relação ao mesmo período de 2024. Mas, apesar da crescente atenção e da expansão do mercado, a dependência dos recursos naturais e a exposição a eventos extremos tornam as energias renováveis vulneráveis às mudanças do clima.
Cada fonte de energia renovável enfrenta riscos climáticos específicos. Os painéis fotovoltaicos, por exemplo, podem perder a eficiência quando submetidos ao calor extremo. As ondas de calor também estão associadas ao aumento do uso dos sistemas de refrigeração, o que pode sobrecarregar a rede elétrica e impactar a capacidade dos sistemas fotovoltaicos de produzir e transmitir a energia. A fumaça de incêndios florestais e a presença de nuvens em tempestades severas também reduzem a radiação solar incidente nos painéis, comprometendo a geração de energia. Além disso, ventos fortes também podem danificar a infraestrutura.
Painéis solares danificados em Porto Rico. IMAGEM: Lorie Shaull/Columbia Climate School
A energia eólica, por sua vez, também é sensível à variabilidade climática. Fenômenos como furacões e ciclones alteram os padrões de circulação e a intensidade do vento, acarretando flutuações na geração. Já a energia hidrelétrica, a maior contribuinte da matriz energética renovável global, é duplamente suscetível aos eventos climáticos extremos, seja pela redução da disponibilidade hídrica nos reservatórios em períodos de estiagem ou pelos danos causados às barragens pelas chuvas intensas. Em 2024, no Equador, por exemplo, a pior seca em décadas levou o governo a adotar o “apagão” noturno e até a suspender o trabalho remoto em função do baixo nível dos reservatórios que abastecem as usinas hidrelétricas do país.
No Brasil, cujas fontes renováveis correspondem a quase metade da matriz energética, os riscos associados à emergência climática também podem ser significativos. Nos últimos anos, secas recordes, intensificadas pelo El Niño e pelo aquecimento global, afetaram diferentes regiões do país, com graves consequências econômicas e sociais. A Amazônia, por exemplo, perdeu 3,3 milhões de hectares de águas superficiais em 2023. Já na região Sul, projeções apontam para maior aridez nas próximas décadas, o que pode ameaçar a regularidade da geração hidrelétrica, principal fonte da matriz nacional. O cenário é agravado pelo fato de 2,6 mil municípios brasileiros estarem localizados em áreas de alto ou muito alto risco de desastres climáticos, como secas, enchentes e deslizamentos. Esses eventos extremos podem comprometer a infraestrutura dedicada às energias renováveis.
A vulnerabilidade às mudanças climáticas não se restringe à geração de energia, mas se estende também à sua transmissão e distribuição. O aumento das temperaturas pode reduzir a eficiência das linhas de transmissão, que perdem a capacidade de conduzir eletricidade em condições de calor extremo. Além disso, subestações e equipamentos de grande porte podem ter sua vida útil encurtada devido ao estresse térmico contínuo. Eventos climáticos extremos, como tempestades, enchentes e incêndios florestais, representam riscos adicionais, pois podem danificar torres de transmissão, derrubar cabos e comprometer transformadores, resultando em apagões de grande escala. Esses impactos resultam no aumento dos custos com manutenção, na redução da confiabilidade do sistema elétrico e na exposição de populações inteiras a períodos prolongados de instabilidade no fornecimento de energia.
Diante da intensificação dos riscos climáticos, o setor de energia tem investido em estratégias de adaptação. Entre elas, vem se destacando o seguro paramétrico, que garante compensações financeiras automáticas sempre que determinados parâmetros climáticos, como ausência de vento, radiação solar abaixo do esperado ou chuvas insuficientes para a geração hidrelétrica, são atingidos. Embora ofereça resposta rápida, esse mecanismo cobre apenas parte das perdas efetivas e ainda gera debates sobre sua relação custo-benefício.
Paralelamente, avançam as soluções tecnológicas voltadas à resiliência do sistema elétrico. O armazenamento de energia, por exemplo, permite compensar variações na geração de energia renovável, enquanto as redes inteligentes (smart grids) aumentam a eficiência do monitoramento e possibilitam equilibrar oferta e demanda em tempo real. Outro caminho possível são as microgrids, baseadas na geração distribuída, que integram diferentes fontes renováveis e reduzem a dependência de grandes centrais, ampliando a segurança do fornecimento em situações de crise. Essas medidas, combinadas, apontam para a transição energética mais robusta e menos vulnerável aos efeitos da emergência climática.
A adaptação exige, ainda, o planejamento de longo prazo. Modelos climáticos, previsões meteorológicas avançadas e análises integradas precisam orientar a localização e o desenho das novas usinas, considerando riscos de estiagem ou a ocorrência de eventos extremos como chuvas intensas. Além disso, a diversificação da matriz energética, combinando as fontes fotovoltaica, eólica, hidrelétrica e outras, pode aumentar a resiliência do setor, visto que cada fonte responde de forma diferente às pressões climáticas.
A expansão das energias renováveis é essencial para enfrentar a emergência climática, mas sua sustentabilidade depende da adaptação do setor. Secas, ondas de calor e outros eventos extremos afetam a geração, a transmissão e a distribuição de energia, impondo riscos à segurança energética. Para reduzir as vulnerabilidades, o setor precisa investir em soluções como armazenamento, redes inteligentes, seguros climáticos e planejamento baseado em modelos científicos. Diversificar a matriz e fortalecer a sua resiliência também são passos centrais para garantir que as renováveis cumpram seu papel na transição energética sem se tornarem reféns das mudanças do clima.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Energias renováveis em foco - Riscos da emergência climática. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/energias-renovaveis-riscos-climaticos. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #EnergiasRenováveis #TransiçãoEnergética #EnergiaLimpa #EnergiaSolar #EnergiaFotovoltaica #EnergiaEólica #EnergiaHidrelétrica
Fontes consultadas
CHO, R./COLUMBIA CLIMATE SCHOOL. How Climate Change Impacts Renewable Energy. Disponível em: https://news.climate.columbia.edu/2024/10/31/how-climate-change-impacts-affect-renewable-energy/. Acesso em: 27 ago. 2025.
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CLIMAINFO. Mundo sofreu secas recordes nos últimos dois anos, mostra a ONU. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/07/06/mundo-sofreu-secas-recordes-nos-ultimos-dois-anos-mostra-a-onu/. Acesso em: 27 ago. 2025.
MOOKERJEE, I.; LOW, M./BLOOMBERG GREEN. Renewables Battling Climate Change Now Need to Insure Against It. Disponível em: https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-08-19/renewables-projects-battling-climate-change-now-need-to-insure-against-it. Acesso em: 26 ago. 2025.