Transformação digital e resíduos eletroeletrônicos
O desafio da economia circular na era da conectividade
Em um minuto:
- A transformação digital avança e amplia o acesso à tecnologia, mas também acelera a troca de celulares, notebooks, roteadores, servidores e outros equipamentos, aumentando a geração de resíduos eletroeletrônicos no Brasil e no mundo.
- O e-lixo pode provocar impactos ambientais e à saúde quando descartado de forma inadequada, além de agravar a pressão sobre recursos naturais críticos.
- A economia circular desponta como caminho para enfrentar os desafios associados à produção crescente de resíduos eletroeletrônicos, com estratégias como prolongar a vida útil dos equipamentos e incentivar o reparo, o reúso, a remanufatura, a coleta e a reciclagem.
A transformação digital avança de forma acelerada, redefinindo a maneira como as empresas operam, os governos prestam serviços e as pessoas se relacionam com o mundo. A expansão do acesso à internet, o avanço do 5G, a disseminação de dispositivos inteligentes e o crescimento da inteligência artificial consolidam um novo paradigma produtivo e social. Contudo, a transição tecnológica traz consigo um efeito colateral crescente, que consiste no aumento dos resíduos de equipamentos eletroeletrônicos, conhecidos também como e-lixo.
Segundo o Global E-waste Monitor, em 2022, foram geradas, no mundo, cerca de 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, volume que cresce em ritmo superior à capacidade de coleta e reciclagem formal. No Brasil, foram aproximadamente 2,4 milhões de toneladas de e-lixo no mesmo ano, o equivalente a 11,4 quilos por habitante, com taxa de coleta formal de somente 3%.
À medida que a digitalização avança, a troca de equipamentos eletroeletrônicos se torna mais frequente. A rápida substituição de celulares, notebooks, roteadores e periféricos, impulsionada por atualizações tecnológicas, ciclos de vida mais curtos e limitações de reparo, faz aumentar a taxa de descarte do e-lixo. Paralelamente, a transformação digital depende de uma infraestrutura física robusta, que inclui servidores, placas, baterias e equipamentos de data centers, cuja atualização constante também produz grandes volumes de resíduos.
No Brasil, a infraestrutura digital também segue em expansão. Em 2025, os investimentos no setor de telecomunicações, por exemplo, chegaram a R$ 36,3 bilhões, alta nominal de 5,2% em relação ao ano anterior. Os recursos foram direcionados sobretudo ao 5G e à fibra óptica, ampliando o acesso à internet e acelerando a digitalização de serviços, empresas e residências. Em um ano, o número de antenas 5G no país cresceu quase 40%, passando de 37,6 mil para 52 mil, enquanto a quantidade de celulares compatíveis com a tecnologia saltou de 40 milhões para 58,2 milhões. Esse movimento reforça a conectividade e consolida o Brasil na economia digital, mas também resulta no aumento do número de equipamentos em circulação e, no médio prazo, do potencial de descarte de celulares, roteadores, modems, periféricos e outros eletroeletrônicos.
A geração de resíduos eletroeletrônicos também tende a aumentar com o avanço de tecnologias emergentes. É o caso da inteligência artificial (IA) generativa, que exige grande capacidade de processamento e depende de uma infraestrutura física composta por servidores, chips, placas e outros componentes de alto desempenho. Como esse hardware costuma ser atualizado com rapidez, a difusão da IA também pode resultar no maior descarte de equipamentos. Um estudo publicado na Nature estima que, entre 2020 e 2030, a IA generativa poderá responder por 1,2 milhão a 5 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, a depender do ritmo de adoção e renovação tecnológica.
O aumento do e-lixo preocupa pelos impactos que pode causar à saúde e ao meio ambiente. Esse tipo de resíduo, um dos que mais crescem no mundo, inclui equipamentos que podem conter substâncias tóxicas, como mercúrio e chumbo. Quando descartados ou manejados de forma inadequada, esses materiais podem contaminar o solo e a água e provocar danos às pessoas expostas.
Além disso, a produção de novos equipamentos demanda a extração intensiva de recursos naturais, incluindo minerais críticos, cuja disponibilidade é limitada e concentrada em poucos países. Ao mesmo tempo, o descarte inadequado do e-lixo contribui para emissões de gases de efeito estufa e perda de materiais valiosos que poderiam ser reinseridos na cadeia produtiva. Esses fatores mostram que o problema não se resume ao volume de resíduos gerados, mas envolve também o uso ineficiente de recursos em um contexto de emergência climática e pressão pela descarbonização.
É nesse ponto que a economia circular ganha relevância. Diferentemente do modelo linear de produzir, consumir e descartar, a circularidade propõe manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível, reduzindo a geração de resíduos e a pressão sobre os recursos naturais. No caso dos eletroeletrônicos, as estratégias de economia circular para a transformação digital se traduzem em três frentes principais: prolongar a vida útil dos equipamentos, estimular o reúso e a remanufatura de componentes e ampliar a coleta e a reciclagem com recuperação de materiais.
No Brasil, esse movimento já conta com avanços institucionais relevantes. Em 2026, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima publicou duas portarias que fortalecem a logística reversa de eletroeletrônicos, assegurando a continuidade das metas de reciclagem e aprimorando a governança dos sistemas de gestão de resíduos sólidos. Essas medidas contribuem para estruturar cadeias mais eficientes de recolhimento, transporte, tratamento e destinação ambientalmente adequada dos equipamentos inutilizados.
Ainda assim, alguns desafios permanecem. A infraestrutura de coleta é, muitas vezes, limitada, o acesso a serviços de reparo é restrito e o desenho de muitos produtos dificulta sua desmontagem e reciclagem. Também podem existir lacunas de informação e engajamento por parte dos consumidores, que nem sempre conhecem os canais adequados para descarte.
Superar essas barreiras exige uma abordagem integrada. Do ponto de vista industrial, é necessário investir em design sustentável, com produtos mais duráveis, modulares e recicláveis. Modelos de negócio baseados em serviços, como locação e recompra de equipamentos, também podem contribuir para reduzir o descarte precoce dos eletroeletrônicos.
No campo das políticas públicas, o fortalecimento da logística reversa, a criação de incentivos econômicos e a fiscalização são fundamentais para o fomento à economia circular. Ao mesmo tempo, iniciativas de educação ambiental podem facilitar a conscientização sobre o consumo responsável e o descarte adequado de eletroeletrônicos.
Por fim, a própria transformação digital pode ser parte da solução. Tecnologias como rastreamento de materiais, plataformas digitais para a coleta de e-lixo e sistemas inteligentes de gestão de resíduos têm potencial para aumentar a eficiência e a transparência das cadeias circulares.
A digitalização é, sem dúvida, um vetor de desenvolvimento econômico e social. Contudo, seu avanço precisa ser acompanhado pela gestão responsável de impactos. Nesse contexto, integrar tecnologia e sustentabilidade passa a ser uma condição para garantir que a inovação contribua, de fato, para um futuro mais equilibrado e resiliente.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Transformação digital e resíduos eletroeletrônicos - O desafio da economia circular na era da conectividade. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/residuos-eletroeletronicos. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #EconomiaCircular #ResíduosEletrônicos #ESG #TransiçãoDigital #Descarbonização #E-waste
Fontes consultadas
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