Emergência Climática e Saúde Mental
Os efeitos diretos e indiretos das mudanças do clima no bem-estar e na qualidade de vida
Em um minuto:
- Ondas de calor e outros eventos climáticos extremos intensificam os riscos à saúde mental, podendo desencadear, por exemplo, crises psiquiátricas, ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.
- Os impactos das mudanças climáticas na saúde mental são diretos e indiretos, incluindo perdas materiais, ruptura de vínculos sociais e a emergência da ecoansiedade.
- Grupos vulneráveis são mais os afetados, reforçando a necessidade de incorporar a saúde mental às políticas e programas de adaptação climática.
As mudanças climáticas atravessam múltiplas dimensões da vida em sociedade. Afetam, por exemplo, a produção de alimentos, comprometem condições de trabalho, amplificam desigualdades e impactam a saúde física. Entre essas transformações, um efeito menos visível começa a ganhar destaque: o sofrimento psíquico associado ao aquecimento global e à intensificação dos eventos extremos.
A literatura científica já descreve a associação entre calor intenso e o agravamento de quadros psiquiátricos. Um estudo publicado na PLOS Mental Health analisou mais de 11 mil atendimentos feitos por conselheiros de linhas de crise na Louisiana, nos Estados Unidos. Os resultados indicam que, em noites muito quentes, as ligações relacionadas a pensamentos suicidas foram 55% mais frequentes. Nas noites mais quentes do ano, esse índice chegou a 166%. O principal fator contribuinte foi a privação de sono, com menções a dificuldades para dormir crescendo 146% em condições de calor extremo. Também houve mais relatos de impulsividade e agressividade, além de maior expressão de desespero. Demandas ligadas a necessidades básicas, como acesso a moradia adequada e ar-condicionado, aumentaram quase 60%. O isolamento social, sobretudo entre jovens, também foi relatado durante a pesquisa.
Embora o estudo anterior se concentre em uma região específica, o fenômeno é global. Em 2024, cerca de 4 bilhões de pessoas, o que corresponde a praticamente metade da população mundial, viveram ao menos 30 dias adicionais de calor extremo devido ao aquecimento global. O ano de 2025 figura entre os mais quentes da história recente, e a temperatura média global segue aumentando, enquanto ondas de calor se tornam mais intensas e frequentes. A elevação persistente das temperaturas produz efeitos biológicos, sociais e emocionais e, por isso, especialistas defendem que as ondas de calor sejam tratadas não apenas como eventos climáticos, mas como emergências de saúde pública. O calor excessivo, por si só, altera o funcionamento do organismo, interferindo no sono e em funções cognitivas, aumentando a irritabilidade e dificultando a regulação térmica.
Inundações, secas prolongadas e outros fenômenos climáticos também podem constituir experiências profundamente desestabilizadoras. A exposição direta a situações potencialmente ameaçadoras, como eventos extremos, eleva o risco de desenvolvimento de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático, especialmente quando há perda de vínculos sociais, de moradia ou de condições básicas de subsistência.
O encadeamento entre eventos extremos e adoecimento mental aparece, por exemplo, nas observações iniciais de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, em Manaus. Ao acompanhar comunidades ribeirinhas e indígenas afetadas por secas severas na Amazônia, o estudo, ainda em andamento, registra aumento de ansiedade, abuso de álcool e outras substâncias, conflitos familiares e retração social, sintomas que aparecem em um contexto de isolamento geográfico, insegurança alimentar e incerteza quanto ao futuro.
Contudo, nem sempre é preciso estar no centro de uma tragédia para sofrer seus efeitos. A ciência distingue impactos diretos das mudanças climáticas na saúde mental, decorrentes da vivência de um evento extremo, e impactos indiretos, relacionados à perda de renda, à restrição de deslocamento, à ruptura de redes comunitárias ou mesmo à exposição constante a notícias alarmantes.
A consciência de que o planeta está se transformando e que eventos extremos se tornam mais frequentes pode gerar preocupação, tristeza, frustração e sensação de impotência. Esse conjunto de reações tem sido chamado de ansiedade climática ou ecoansiedade e, embora não se trate de um diagnóstico clínico formal, é um campo de estudo crescente.
A incerteza, a imprevisibilidade e a percepção de falta de controle diante da emergência climática podem alimentar o sofrimento psicológico. Os efeitos da ecoansiedade variam de angústia transitória a quadros clínicos que demandam acompanhamento profissional. Além disso, os impactos econômicos dos eventos extremos, como perda de moradia, interrupção de atividades laborais e destruição de comunidades, podem prolongar o estresse por anos, afetando a qualidade de vida em médio e longo prazo.
Os efeitos do clima sobre a saúde mental, tanto diretos como indiretos, não se distribuem de forma homogênea. Pessoas de baixa renda, idosos, crianças e indivíduos com transtornos mentais prévios estão entre os mais vulneráveis. Esse quadro reforça a necessidade de integrar a saúde mental às políticas de adaptação climática. Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda cinco frentes principais para mitigar impactos: (i) incorporar a dimensão climática às políticas e programas de saúde mental; (ii) incluir o apoio psicossocial nas estratégias de enfrentamento das mudanças climáticas; (iii) fortalecer compromissos globais; (iv) adotar abordagens multissetoriais e comunitárias e (v) ampliar o financiamento tanto para saúde mental quanto para respostas aos efeitos climáticos sobre a saúde.
A crise climática é, também, uma crise de saúde física e mental. Além dos impactos diretos, a incerteza e a percepção de um futuro instável geram efeitos indiretos, como a ecoansiedade, com consequências potencialmente duradouras sobre o bem-estar e a qualidade de vida. Dessa forma, o reconhecimento da relação entre as mudanças climáticas e o adoecimento psíquico é essencial para que políticas de adaptação climática incorporem estratégias de cuidado, prevenção e fortalecimento das redes de apoio.
Nota: se você ou alguém conhecido precisa de apoio emocional, é possível buscar atendimento gratuito no Centro de Valorização da Vida (CVV), ligando para o número 188. O serviço funciona 24 horas por dia.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Emergência Climática e Saúde Mental - Os efeitos diretos e indiretos das mudanças do clima no bem-estar e na qualidade de vida. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/saude-mental-mudancas-climaticas. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #AquecimentoGlobal #SaúdeMental #SaúdePública #Ecoansiedade
Fontes consultadas
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