Zoonoses, emergência climática e degradação ambiental: episódios recentes reacendem alertas globais
Em um minuto:
- Surtos recentes de ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, além de casos do hantavírus Andes identificados em passageiros do navio M/V Hondius, acendem um alerta sobre doenças infecciosas em um mundo mais vulnerável a riscos sanitários. A emergência climática, associada à alteração de temperaturas, chuvas, distribuição de vetores e comportamento de reservatórios, acrescenta uma camada de risco à ocorrência e à disseminação dessas doenças.
- A maioria das doenças infecciosas novas ou reemergentes no século XXI tem origem zoonótica, e grande parte delas vem da fauna silvestre. Fatores como desmatamento, fragmentação de habitats, degradação ambiental e mudanças no uso da terra ampliam o contato entre humanos, animais e patógenos, reforçando a necessidade de estratégias integradas de Saúde Única.
Surtos recentes de ebola, identificados na República Democrática do Congo e em Uganda, e casos de hantavírus associados ao navio de cruzeiro M/V Hondius reacenderam o alerta global sobre a relação entre doenças infecciosas, mudanças climáticas e degradação ambiental. Embora tenham origens e dinâmicas distintas, os dois episódios mostram como patógenos transmitidos a partir de animais podem ganhar relevância em um mundo marcado pela mobilidade humana, pela pressão crescente sobre ecossistemas e por desigualdades territoriais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou, em maio de 2026, um surto de ebola envolvendo a espécie viral Bundibugyo, para a qual ainda não há vacina ou tratamento específico amplamente disponível. A situação ocorre em áreas remotas, densamente povoadas e afetadas por crise humanitária, insegurança e intensa movimentação de pessoas e mercadorias. Até 29 de maio, mais de 130 casos e 18 mortes haviam sido confirmados nos dois países africanos.
No mesmo período, a OMS acompanhava um surto de hantavírus Andes relacionado ao navio de cruzeiro M/V Hondius. Até 27 de maio, 13 casos haviam sido reportados, incluindo três mortes. A hipótese de trabalho indicava que o primeiro caso de hantavirose teria sido adquirido em terra, antes do embarque, com evidências posteriores de transmissão entre pessoas a bordo. O hantavírus é geralmente transmitido pelo contato com urina, fezes ou saliva de roedores infectados. A exposição ao patógeno costuma ocorrer em áreas rurais, florestais ou agrícolas, mas mudanças ambientais podem aproximar roedores e outros animais silvestres de espaços ocupados por humanos, facilitando a transmissão da zoonose.
A aproximação crescente entre animais silvestres e pessoas é um dos fatores que podem favorecer a ocorrência de novos surtos, epidemias e, em determinadas condições, até mesmo de pandemias. À medida que habitats naturais são degradados ou fragmentados, espécies capazes de carregar patógenos passam a viver mais perto de moradias, centros urbanos, rebanhos e áreas produtivas, aumentando o risco de transbordamento zoonótico, isto é, a passagem de agentes infecciosos de animais para humanos. Segundo a literatura científica, entre as doenças infecciosas novas ou reemergentes que afetaram humanos no século XXI, cerca de 75% têm origem zoonótica, com reservatórios naturais em outros vertebrados. Desse grupo de doenças, mais de 70% tiveram origem na fauna silvestre, como HIV/AIDS, ebola e síndrome respiratória aguda grave (SARS, sigla em inglês).
Apesar de surtos, epidemias e pandemias serem fenômenos multifatoriais e complexos, as mudanças climáticas podem afetar a dinâmica de muitas doenças infecciosas. Riscos climáticos podem agravar mais de mil vias de transmissão de patógenos, com impactos sobre cerca de metade das doenças humanas conhecidas. Isso ocorre porque alterações de temperatura, regimes de chuva e disponibilidade de alimento podem interferir na distribuição, na abundância e no comportamento de vetores e reservatórios.
Além disso, eventos extremos como incêndios florestais, secas e ondas de calor podem forçar o deslocamento de animais silvestres, elevando a chance de contato deles com populações humanas. Na Argentina, por exemplo, especialistas relacionam o aumento recente de casos de hantavírus a fatores como degradação ambiental, temperaturas mais elevadas e mudanças no comportamento do rato-de-cauda-longa, principal transmissor do patógeno na região.
Embora tenha tido origem e trajetória próprias, a pandemia de COVID-19 também ajuda a compreender a relação entre saúde humana, degradação ambiental e mudanças globais. As evidências disponíveis indicam que o SARS-CoV-2, ou um vírus ancestral próximo, provavelmente chegou aos humanos a partir de uma fonte zoonótica em Wuhan, na China, onde foi identificado em 2019. Pesquisadores apontam que as mesmas pressões que aceleram a perda de biodiversidade e a emergência climática, como mudanças no uso da terra e degradação de habitats, ampliam as interfaces entre humanos, animais e patógenos, favorecendo novas oportunidades de contato com agentes infecciosos e aumentando o risco de disseminação de doenças.
Diante da multiplicidade de riscos emergentes, especialistas defendem uma abordagem integrada, conhecida como Saúde Única (ou One Health), que combina vigilância epidemiológica, conservação ambiental, proteção da biodiversidade, mitigação das mudanças climáticas e melhoria das condições sanitárias. A prevenção de novos surtos requer, entre outras medidas, a preservação de ecossistemas, a redução de emissões, o fortalecimento de sistemas públicos de saúde e investimentos em preparação global. Nesse contexto, a abordagem convencional de saúde, centrada principalmente na resposta a casos já instalados, torna-se insuficiente para lidar com doenças cuja dinâmica depende, cada vez mais, da interação entre clima, ambiente, território e saúde humana.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Zoonoses, emergência climática e degradação ambiental: episódios recentes reacendem alertas globais. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/surtos-zoonoses-2026. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #SaúdeÚnica #OneHealth #Zoonoses #Ebola #Hantavírus #SaúdePública #Biodiversidade
Fontes consultadas
CLIMAINFO. Mudanças climáticas podem ter impulsionado hantavírus na Argentina. Disponível em: https://climainfo.org.br/2026/05/11/mudancas-climaticas-podem-ter-impulsionado-hantavirus-na-argentina/. Acesso em: 1 jun. 2026.
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