Mudanças climáticas e saúde do trabalhador
O calor extremo como risco ocupacional emergente
Em um minuto:
- O calor extremo é um risco ocupacional global e crescente. Mais de 70% da força de trabalho mundial está exposta a temperaturas elevadas, com impactos sobre saúde, segurança e produtividade.
- A exposição ao calor extremo pode provocar adoecimento e reduzir a capacidade de trabalho. Globalmente, as perdas econômicas relacionadas ao estresse térmico no ambiente laboral superam os US$ 360 bilhões por ano; no Brasil, podem alcançar até US$ 353 milhões por dia em cenários climáticos mais críticos.
- Medidas como hidratação adequada, pausas, ajuste de jornadas e melhorias no ambiente de trabalho reduzem os riscos à saúde dos trabalhadores.
O ano de 2025 figura entre os mais quentes da história recente, tendência confirmada pelo registro de janeiro de 2026 como o quinto mais quente já observado. A temperatura média global segue em elevação, enquanto ondas de calor se tornam mais intensas, frequentes e duradouras. Diante do agravamento das mudanças climáticas, a gestão da saúde e da segurança do trabalho fica suscetível a riscos emergentes, com impactos sobre a saúde, o bem-estar e a produtividade dos trabalhadores. O desafio não é apenas operacional, mas também institucional: normas e regulamentações trabalhistas concebidas em outro contexto histórico passam a esbarrar em fatores inéditos, como a intensificação dos eventos extremos.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta que mais de 70% da força de trabalho global (cerca de 2,4 bilhões de pessoas) está exposta ao calor excessivo, aumento de quase 35% em relação a duas décadas atrás. A cada ano, aproximadamente 23 milhões de lesões ocupacionais e quase 19 mil mortes são associadas à exposição a temperaturas elevadas. Nas Américas, os acidentes de trabalho relacionados ao calor cresceram mais de 33% desde 2000, a maior taxa de aumento regional do planeta.
De acordo com a OIT, temperaturas de até 26 °C são consideradas seguras para atividades ao ar livre. Acima desse limiar, a exposição prolongada ao calor desencadeia o chamado estresse térmico, conjunto de efeitos físicos, cognitivos e psicossociais. Entre os seus impactos à saúde estão a desidratação, a fadiga, a queda da capacidade de concentração, o aumento da irritabilidade e o crescimento do número de acidentes. O calor também pode agravar doenças cardiovasculares, pulmonares e renais pré-existentes e pode favorecer a expansão de doenças infecciosas transmitidas por vetores, como dengue e zika. A saúde mental também pode ser comprometida, com maior risco de exaustão, ansiedade e estresse. Determinados grupos requerem atenção especial, como pessoas idosas, indivíduos com doenças crônicas e trabalhadoras grávidas, mais suscetíveis ao desgaste fisiológico imposto pelo estresse térmico no ambiente laboral.
A exposição ao estresse térmico é particularmente relevante em setores que envolvem trabalho ao ar livre ou em ambientes pouco climatizados, como agricultura, construção civil, logística, energia, limpeza urbana, transporte e parte da indústria e dos serviços. O risco pode ser aumentado por fatores como presença de fontes artificiais de calor, a exemplo de caldeiras e fornos industriais, além de esforço físico elevado, uso de vestimentas e equipamentos de proteção que dificultam a dissipação do calor, ventilação inadequada e jornadas prolongadas.
As consequências do estresse térmico extrapolam as questões de saúde e atingem também a economia. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que, apenas em 2021, o calor extremo resultou na perda de 470 bilhões de horas de trabalho no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta uma redução de produtividade de 2% a 3% para cada grau acima de 20 °C. Globalmente, a OIT calcula que mortes, incapacidades e custos médicos associados ao estresse térmico já representem perdas superiores a 361 bilhões de dólares por ano.
No Brasil, os números são igualmente expressivos. Um estudo publicado na Scientific Reports projeta que, em um cenário intermediário de intensificação das mudanças climáticas, as perdas econômicas relacionadas ao estresse térmico no trabalho podem chegar a 228 milhões de dólares por dia. Em um cenário mais crítico, esse valor pode alcançar 353 milhões diários. Sem medidas de adaptação, essas perdas podem representar cerca de 2% do PIB brasileiro até o final do século.
O avanço da emergência climática também se reflete na crescente judicialização associada à exposição ocupacional ao calor extremo. Entre 2022 e 2024, as denúncias ao Ministério Público do Trabalho (MPT) relacionadas ao calor quase quintuplicaram. Em 2025, o número de registros mais que dobrou em relação a 2023, com destaque para Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro, de onde veio a maior parte das queixas.
Diante desse cenário, cresce o consenso de que enfrentar o estresse térmico é não apenas uma questão de saúde, mas de estratégia econômica e gestão de riscos institucionais. Muitas medidas de proteção são simples, eficazes e de baixo custo. Entre elas estão a oferta de água potável, a promoção de pausas regulares em locais sombreados e ventilados, a reorganização de jornadas para horários de menor insolação e a educação dos trabalhadores para reconhecer sinais precoces de adoecimento em função do calor.
Soluções estruturais também ganham espaço, como o uso de materiais com menor absorção térmica em edificações e a adoção de soluções baseadas na natureza, como arborização e implantação de áreas verdes que reduzem a temperatura local. No Brasil, o MPT também publicou diretrizes específicas para apoiar empresas na adaptação às condições climáticas extremas, reforçando que proteger os trabalhadores do calor é parte indissociável do dever de zelar pela saúde e pela segurança no trabalho.
À medida que a emergência climática avança, o calor passa a redefinir as condições de trabalho. Reconhecer essa nova dinâmica e incorporá-la à gestão da saúde e da segurança, às políticas públicas e às estratégias institucionais será decisivo para proteger vidas, preservar a produtividade e assegurar o futuro do trabalho compatível com as transformações do clima.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Mudanças climáticas e saúde do trabalhador - O calor extremo como risco ocupacional emergente. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/mudancas-climaticas-saude-seguranca-trabalho. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #CalorExtremo #SaúdeDoTrabalhador #SegurançaDoTrabalho #SST #ESG
Fontes consultadas
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