ONU reconhece falência hídrica como novo cenário global

Relatório da Universidade das Nações Unidas aponta impactos irreversíveis sobre recursos hídricos e ecossistemas associados

Autor
Observatório Sistema Fiep - 02/02/2026

Em um minuto:

  • Em janeiro, a ONU anunciou que o mundo entrou em estado de falência hídrica. O termo descreve uma condição crônica e persistente, na qual o uso da água ultrapassa, por longos períodos, a capacidade de reposição natural dos sistemas hidrológicos.

Por décadas, a escassez de água foi tratada como uma crise temporária, ou seja, um período difícil, porém com possibilidade de recuperação. Contudo, essa narrativa já não se sustenta. Segundo relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU), publicado em janeiro, o planeta entrou em uma nova era, a da falência hídrica global. O termo descreve uma condição persistente, na qual o uso de água ultrapassa, por longos períodos, a capacidade de reposição natural dos sistemas hidrológicos. O resultado é a degradação potencialmente irreversível de recursos hídricos, como rios, lagos e aquíferos, e dos ecossistemas associados.

Alguns números ajudam a dimensionar a gravidade da situação. Cerca de 70% dos principais aquíferos subterrâneos do planeta estão em declínio de longo prazo. Metade dos grandes lagos do mundo, dos quais depende um quarto da humanidade, vem perdendo volume desde os anos 1990. Nas últimas cinco décadas, 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais foram destruídos, área equivalente a quase metade do território brasileiro.

A falência hídrica não se restringe aos ecossistemas naturais. Seus efeitos já se manifestam na vida das pessoas, sobretudo nos ambientes urbanos, onde a demanda por água é elevada e constante. Uma análise recente mostra que metade das 100 maiores cidades do mundo enfrenta alto estresse hídrico; em 38 delas, a situação é considerada extrema. Metrópoles como Pequim, Nova York, Los Angeles, Deli e Rio de Janeiro retiram água em volumes próximos ou superiores à disponibilidade local, tornando o abastecimento cada vez mais vulnerável a falhas e interrupções.

Esse panorama é parte de um colapso sistêmico mais profundo, que já afeta a segurança hídrica de grande parte da população mundial. Hoje, cerca de 75% das pessoas vivem em países sujeitos à insegurança hídrica. Aproximadamente 2,2 bilhões ainda não têm acesso à água potável gerida de forma segura, enquanto 3,5 bilhões carecem de saneamento adequado. Além disso, mais de 4 bilhões de indivíduos enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao longo do ano, o que afeta a saúde, a alimentação, a renda e a estabilidade social.

 

Quantidade e qualidade em queda

O conceito de falência hídrica envolve não apenas a quantidade, mas também a qualidade da água e, em muitos casos, a eficiência com que ela é distribuída. Frequentemente, o volume utilizável de água é muito inferior ao total disponível. A poluição por resíduos, esgoto e outros efluentes torna a água de muitos rios e lagos impróprios para consumo, enquanto a intrusão salina e a salinização dos solos agravam o problema, especialmente em áreas costeiras. Somam-se a isso as perdas ao longo dos sistemas de distribuição: no Brasil, por exemplo, cerca de 40% da água tratada não chega ao consumidor final. Na prática, em algumas regiões, há água disponível, mas ela está poluída demais, salgada demais ou se perde antes de cumprir sua função.

 

Impactos econômicos e sociais

As consequências vão muito além do meio ambiente. O documento da UNU reporta que os danos econômicos associados às secas, intensificados pela degradação do solo, superexploração de aquíferos e mudanças climáticas, somam mais de US$ 300 bilhões por ano.

Esses impactos se traduzem em alta nos preços dos alimentos, queda na geração de energia hidrelétrica, riscos sanitários e pressão sobre cadeias globais de suprimento. Em algumas regiões, a escassez de água também influencia fluxos migratórios e está no cerne de tensões geopolíticas e conflitos sociais.

 

Causas da falência hídrica

O relatório da UNU indica que a nova realidade hídrica do planeta é, em grande medida, derivada de secas influenciadas por fatores antropogênicos. A escassez de água não decorre apenas da variabilidade natural do clima, mas é resultante também da gestão inadequada dos recursos hídricos, do desmatamento irregular, da degradação do solo e do aumento da poluição.

Além disso, a pressão sobre os recursos hídricos é intensificada pelo aumento contínuo da demanda. O crescimento da agricultura, a expansão das cidades, o avanço da atividade industrial e, mais recentemente, a instalação de data centers têm elevado o consumo global de água. Em regiões onde os recursos já são limitados, rios, reservatórios, aquíferos e outras fontes sofrem impactos adicionais que comprometem a segurança hídrica.

Nesse contexto, as mudanças climáticas atuam como um amplificador de todos esses processos que acarretam o desabastecimento de água. O aquecimento global altera os padrões de precipitação, torna as secas mais frequentes e intensas, eleva a demanda hídrica das lavouras e acelera o derretimento de geleiras, que funcionam como reservas de água doce. Ao interagir com as pressões já existentes, o clima transforma situações de estresse hídrico em quadros persistentes de escassez.

 

Da prevenção à gestão da falência

O reconhecimento da falência hídrica como um novo cenário global marca uma inflexão na forma como a água deve ser compreendida e gerida. Os dados apresentados pela UNU indicam que a escassez deixou de ser episódica para se tornar estrutural. Diante desse quadro, o desafio não se limita à ampliação da oferta hídrica ou à mitigação pontual de crises, mas exige uma mudança de paradigma. Por isso, os autores do relatório da UNU defendem uma mudança de foco: sair da lógica exclusiva da prevenção e adotar estratégias de “gestão da falência hídrica”. Entre as medidas recomendadas estão a mitigação de danos irreversíveis, a transformação de setores intensivos em água, a garantia de transições justas para populações vulneráveis e a integração de políticas de uso do solo, saneamento, conservação ambiental e adaptação climática. Em um contexto de limites cada vez mais evidentes, gerir a água passa a significar reconhecer riscos, priorizar escolhas e reorganizar sistemas produtivos e urbanos para operar dentro das condições impostas pelas transformações em curso.

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

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Para citar este artigo:

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). ONU reconhece falência hídrica como novo cenário global - Relatório da Universidade das Nações Unidas aponta impactos irreversíveis sobre recursos hídricos e ecossistemas associados. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/falencia-hidrica. Acesso em: dd/mm/aaaa.

 

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Fontes consultadas

CLIMAINFO. Mundo entrou em uma nova era de “falência hídrica”, mostra a ONU. Disponível em: https://climainfo.org.br/2026/01/21/mundo-entrou-em-uma-nova-era-de-falencia-hidrica-mostra-a-onu/. Acesso em: 27 jan. 2026.

MADANI, K./THE CONVERSATION. The world is in water bankruptcy, UN scientists report – here’s what that means. Disponível em: https://theconversation.com/the-world-is-in-water-bankruptcy-un-scientists-report-heres-what-that-means-273213. Acesso em: 27 jan. 2026.

ONU NEWS. Estudo afirma que o mundo entrou na era da falência hídrica global. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2026/01/1852126. Acesso em: 27 jan. 2026.

SALVIDGE, R./THE GUARDIAN. Half the world’s 100 largest cities are in high water stress areas, analysis finds. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2026/jan/22/half-world-100-largest-cities-in-high-water-stress-areas-analysis-finds. Acesso em: 27 jan. 2026.

UNITED NATIONS UNIVERSITY INSTITUTE FOR WATER, ENVIRONMENT AND HEALTH. UNU-INWEH report on ‘Global Water Bankruptcy’. Disponível em: https://www.unwater.org/news/unu-inweh-report-global-water-bankruptcy. Acesso em: 27 jan. 2026.


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