Arquitetura flutuante
A convivência com a água como estratégia de adaptação
Em um minuto:
- Aumento do nível do mar: a emergência climática ameaça milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras, exigindo soluções adaptativas para as cidades e habitações frente às novas condições ambientais.
- O que faz parte da arquitetura flutuante: casas e edificações construídas sobre plataformas aquáticas, capazes de acompanhar a elevação das águas e reduzir riscos de inundações.
- Exemplos pelo mundo: os projetos vão de cidades flutuantes planejadas, como Oceanix Busan, na Coreia do Sul, a bairros residenciais em Roterdã e sistemas modulares como o Makoko Floating System. Há também iniciativas de luxo, como as vilas submersas em Dubai.
- Experiência brasileira: a convivência com a água não é novidade em algumas regiões do país, como na Amazônia, onde comunidades ribeirinhas já adaptam suas casas aos rios há décadas. Hoje, surgem novos projetos no país, como estruturas de hospedagem na Bahia e espaços públicos flutuantes em Belém.
Frente à emergência climática, cresce a necessidade de adaptar os espaços urbanos às transformações ambientais em curso. O nível do mar vem subindo em ritmo acelerado e deve continuar aumentando nas próximas décadas. Esse fenômeno ameaça comunidades costeiras em todo o mundo, colocando em risco a segurança de milhões de pessoas que vivem próximas ao litoral. Projeções indicam que centenas de milhões de habitantes podem ser impactados, seja pela perda de áreas habitáveis, seja pelo aumento da frequência e da intensidade das inundações.
Diante desse cenário, têm sido exploradas soluções que incorporam a água como aliada no planejamento urbano. Entre elas, está a arquitetura flutuante. Essa proposta se apresenta como alternativa para a habitabilidade em regiões vulneráveis, uma peça no quebra-cabeça da adaptação climática.
O que é a arquitetura flutuante
Nesse modelo de arquitetura, casas e edificações são construídas sobre plataformas que flutuam em rios, lagos, canais ou mar aberto. Diferentemente de barcos, não contam como motor e costumam permanecer ancoradas ou amarradas. Podem subir e descer conforme o nível da água, o que reduz o risco de inundações em áreas sujeitas a variações sazonais ou a eventos extremos.
Essa modalidade de construção permite ocupar espaços aquáticos sem provocar a destruição irreversível do solo, evitando a expansão urbana descontrolada ou a ocorrência de desmatamentos para a abertura de terrenos. Muitas propostas de construções flutuantes incorporam ainda elementos sustentáveis, como painéis fotovoltaicos, captação de água da chuva, tratamento de esgoto local e uso de materiais de baixo impacto. A modularidade e a mobilidade das estruturas também favorecem a realocação ou a expansão das edificações flutuantes conforme as necessidades da comunidade ou de seus habitantes.
Apesar dos benefícios da arquitetura flutuante, também há desafios: a manutenção da base e dos sistemas elétricos e hidráulicos exige planejamento, inspeção e adaptações constantes. Também deve ser observada a adequação às normas de construção específicas de cada localidade para suportar movimentações, umidade e variações hidrodinâmicas.
Exemplos de arquitetura flutuante ao redor do mundo
Em Busan, na Coreia do Sul, o projeto Oceanix Busan pretende construir a primeira cidade flutuante sustentável do mundo. Desenvolvido em parceria com a ONU-Habitat, o projeto prevê três plataformas hexagonais interconectadas para abrigar inicialmente cerca de 900 pessoas, com possibilidade de expansão para até 12 mil moradores. A cidade flutuante incluirá geração de energia renovável, agricultura urbana, sistemas de coleta e filtragem de água e gerenciamento integrado de resíduos. Embora ainda em fase de planejamento, Oceanix Busan está sendo pensada como um “laboratório flutuante”, que possibilitará testar tecnologias que possam ser exportadas para cidades costeiras vulneráveis. A meta é que a cidade flutuante esteja pronta até 2030.
O projeto Oceanix Busan pretende construir a primeira cidade flutuante sustentável do mundo. IMAGEM: OCEANIX/BIG-Bjarke Ingels Group
No âmbito de habitações flutuantes, Rotterdam (Holanda) abriga o projeto Nassauhaven, com 17 casas flutuantes projetadas pela empresa local PDA. As residências ficam sobre pontões de concreto presos ao leito do porto, subindo e descendo suavemente com as marés, e são interconectadas por passarelas. São projetadas para neutralidade energética, com painéis fotovoltaicos, uso de biomassa para aquecimento e sistemas de tratamento local de resíduos.
Projeto Nassauhaven, também conhecido como “rua flutuante”, desenvolvido em Rotterdam, na Holanda. IMAGEM: Mawipex/VW Daken/Elevate
Outro exemplo icônico é o trabalho do escritório NLÉ, sob a liderança do arquiteto nigeriano Kunlé Adeyemi, que tem explorado a utilização de módulos flutuantes em projetos diversos ao redor do mundo. O ponto de partida foi a Makoko Floating School, construída em Lagos, Nigéria, em 2013, sobre barris plásticos como flutuadores e estrutura de madeira e bambu.
A Makoko School era um protótipo com salas de aula, espaço comunitário e coleta de água da chuva. A partir dessa experiência, o NLÉ desenvolveu o Makoko Floating System (MFS), módulos planos pré-fabricados que podem ser montados por equipes pequenas, com versões de diferentes tamanhos, para uso residencial, educacional ou comunitário. Em 2021, o conceito foi aplicado, por exemplo, em Mindelo, em Cabo Verde: um centro cultural flutuante composto de três pavilhões triangulares foi instalado sobre o mar e conectado à costa por uma passarela.
Estrutura flutuante do Floating Music Hub, em Mindelo, Cabo Verde. IMAGEM: NLÉ
Projetos de arquitetura flutuante também já alcançam o Brasil, ainda que em escala reduzida. Contudo, essa não é uma novidade por aqui: especialmente em regiões amazônicas, comunidades ribeirinhas utilizam há décadas casas e estruturas adaptadas às variações do nível dos rios, mostrando que a convivência com a água já faz parte da realidade local.
Flutuante Tukano, localizado no Rio Tarumã, em Manaus. IMAGEM: Pedro Paulo/Estadão/Casa Cor
Em contextos mais recentes, surgem iniciativas de caráter experimental e arquitetônico, como a proposta do escritório Studio DUO (via plataforma Archa) para uma estrutura modular de hospedagem flutuante em Porto Seguro (BA), incorporando elementos da cultura regional.
O Studio DUO projetou um “Airbnb” flutuante que incorpora elementos da cultura baiana. IMAGEM: Revista Haus
Outros exemplos implantados no país aparecem em feiras de arquitetura e em projetos públicos, como a AquaPraça em Belém, idealizada pelos escritórios Carlo Ratti Associati e Höweler + Yoon para a COP30. Após o evento, a estrutura flutuante será incorporada como espaço permanente da capital paraense.
Em outro polo extremo, projetos de luxo exploram a arquitetura flutuante como experiência: em Dubai, o Floating Seahorse alia design sofisticado a ambientes submersos, jardim aquático e alto padrão de conforto, uma vitrine para tecnologia e estilo no contexto aquático.
Projeto de luxo em Dubai, incorporando arquitetura flutuante com estruturas submersas. IMAGEM: The Floating Seahorse
A arquitetura flutuante representa uma ferramenta no arsenal de adaptação às mudanças climáticas, especialmente em localidades costeiras, insulares ou sujeitas à elevação do nível do mar. Projetos como o Oceanix Busan demonstram que é possível imaginar habitações resilientes sobre a água, mas ainda restam desafios técnicos, regulatórios e financeiros a serem vencidos. O futuro da habitação diante da emergência climática provavelmente exigirá convivência inteligente com o ambiente aquático, e a arquitetura flutuante pode oferecer alternativas para esse caminho.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
Para receber e-mails com as notícias, cadastre-se aqui.
Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Arquitetura flutuante - A convivência com a água como estratégia de adaptação. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/arquitetura-flutuante. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #ArquiteturaFlutuante #ArquiteturaSustentável #CidadesResilientes #AdaptaçãoClimática
Fontes consultadas
BELEM NEGÓCIOS. Belém vai ganhar praça flutuante que foi destaque na Bienal de Arquitetura de Veneza. Disponível em: https://www.belemnegocios.com/post/belem-vai-ganhar-praca-flutuante-que-foi-destaque-na-bienal-de-arquitetura-de-veneza. Acesso em: 24 set. 2025.
HADRIAN, C./CASACOR. 7 projetos de casas flutuantes para se surpreender com a arquitetura. Disponível em: https://casacor.abril.com.br/pt-BR/noticias/arquitetura/7-projetos-de-casas-flutuantes-para-se-surpreender-com-a-arquitetura. Acesso em: 24 set. 2025.
HAUS. Projeto de Arquitetura para Airbnb Flutuante: Uma imersão na cultura baiana. Disponível em: https://revistahaus.com.br/galeria-projetos/projeto-de-arquitetura-para-airbnb-flutuant/. Acesso em: 24 set. 2025.
PERRY, F./CNN. A arquitetura flutuante não é o futuro, ela já está aqui. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/lifestyle/a-arquitetura-flutuante-nao-e-o-futuro-ela-ja-esta-aqui/. Acesso em: 23 set. 2025.
RUBIO, E./O GLOBO. 'Oceanix Busan': Coreia do Sul vai construir cidade flutuante para enfrentar as mudanças climáticas. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2023/06/oceanix-busan-coreia-do-sul-vai-construir-cidade-flutuante-para-enfrentar-as-mudancas-climaticas.ghtml. Acesso em: 24 set. 2025.