Emergência Climática

Como a Ficção Pode Inspirar a Ação no Mundo Real

Autor
Observatório Sistema Fiep - 24/02/2025

Em um minuto:

  • O que é ficção climática? Também chamada de “cli-fi”, as obras abordam cenários afetados pelas mudanças climáticas.
  • Por que é importante? Histórias envolventes despertam empatia, facilitam diálogos e ajudam a entender os impactos da crise climática no cotidiano.
  • Inspiração para ação: a ficção climática pode incentivar reflexões e mudanças de comportamento em relação ao meio ambiente.
  • Conexão com a ciência: muitos livros de ficção climática são baseados em pesquisas e dados científicos sobre o clima, tornando conceitos complexos mais acessíveis.

O ser humano adora histórias. A contação de histórias, inclusive, é uma das formas mais antigas de compartilhar conhecimento. Quando contamos uma história para alguém, os neurônios de quem nos ouve são disparados e passam a apresentar os mesmos padrões que os nossos, quase como se ocorresse a “sincronização” de cérebros. O mesmo pode acontecer quando alguém lê um livro ou vê um filme de ficção, e é esse fenômeno que explica por que muitas vezes nos conectamos profundamente com uma história ou com seus personagens. É por isso, também, que a contação de histórias extrapolou a literatura e o cinema e vem sendo aplicada até mesmo para o marketing de produtos e serviços.

E se as histórias fossem utilizadas também para a mobilização em prol do clima?

É essa a premissa da ficção climática, também chamada “cli-fi” (abreviação da expressão em inglês “climate fiction”). A ficção climática não é um gênero literário por si só, mas sim uma mistura de obras de estilos diversos que têm como eixo central as mudanças climáticas e seus efeitos. As histórias de ficção climática exploram, por exemplo, os impactos da poluição, dos eventos extremos e do aquecimento global no planeta e na humanidade. As narrativas podem se passar no passado, no presente ou no futuro.

A ficção climática não é nova, mas é difícil “cravar” o seu início. Algumas referências indicam que o ponto de partida ocorreu ainda no século XIX, com autores como Jules Verne, enquanto outras sugerem que as primeiras obras de ficção climática surgiram a partir da década de 1960. O termo “ficção climática”, contudo, só ganhou popularidade na década de 2000. Nos últimos anos, com a intensificação das mudanças climáticas e com a maior veiculação de notícias sobre elas, o número de obras de cli-fi disparou no mundo.

O interesse do público também aumentou, tendo sido organizadas até mesmo competições relacionadas ao tema. Desde 2021, por exemplo, a Grist Magazine realiza, anualmente, o concurso “Imagine 2200”, em que são selecionados e divulgados contos de ficção climática que imaginam como será o planeta daqui a muitas décadas. Acessando a página do concurso, é possível ler as histórias (em inglês). Já em 2024, foi criado no Reino Unido o “Climate Fiction Prize”, prêmio literário que celebra romances que abordam a crise climática e as respostas humanas a ela. A obra vencedora dessa primeira edição será divulgada em maio e receberá 10 mil libras.

Retornando ao mundo real, estamos diante de uma situação alarmante. Em 2024, o aumento da temperatura média global excedeu 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais, marco estabelecido pelo Acordo de Paris em 2015. A corrida agora deve ser para evitar ultrapassar 2 °C, o que poderia ocasionar efeitos sérios e irreversíveis para o planeta. Dessa forma, a ação climática é urgente e imprescindível para o enfrentamento das mudanças climáticas, e novos modos de pensar e agir são necessários para resolver esse desafio complexo e multifacetado. Mas como a ficção climática pode estimular a mobilização?

 

Como a ficção climática pode inspirar a ação pelo clima?

Segundo pesquisa do Instituto Datafolha, 34% dos brasileiros não sabem o que são as mudanças climáticas. Ainda, mais da metade dos entrevistados disse não saber como colaborar no cotidiano para reduzir a quantidade de emissões de gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento global. Esses resultados sugerem que, mesmo com a profusão de dados sobre o assunto, muitas vezes não compreendemos como agir no dia a dia para lidar com os eventos extremos e outros efeitos do clima em mudança.

Além disso, as notícias relacionadas às mudanças climáticas podem ser, por vezes, desanimadoras e ocasionar até mesmo a ansiedade climática, que é o sentimento angustiante gerado pela preocupação com as consequências do aquecimento global.

A ficção climática, por vez, pode ajudar a “amortecer” esses efeitos e facilitar a apreensão das informações. Também pode inspirar à ação por gerar maior conexão emocional com o público em comparação à divulgação de notícias ou de dados sobre as mudanças climáticas. Saiba mais a seguir:

 

• Assimilação de conceitos técnicos e científicos

Frequentemente, as obras de ficção climática são construídas com base em pesquisas científicas sobre as mudanças climáticas. Assim, a cli-fi traduz dados científicos em histórias envolventes, dando uma roupagem atrativa para informações que, muitas vezes, são complexas e interpretadas como “distantes” do cotidiano de boa parte das pessoas. Então, ao criar cenários alinhados às previsões para o planeta, essas narrativas conectam o público leigo à ciência do clima, podendo facilitar a compreensão sobre o tema.

 

• Visualização de cenários futuros

Em geral, o cérebro humano não processa cenários abstratos e distantes com a mesma urgência que ameaças imediatas. Por exemplo, problemas concretos e próximos, como uma crise econômica, podem ser percebidos como mais urgentes do que eventos climáticos que podem acontecer daqui a 10, 30 ou 50 anos. Além disso, tendemos a subestimar o efeito de mudanças graduais, que se acumulam ao longo de anos, como o aquecimento global. Esse viés faz com que, frequentemente, ignoremos ameaças até que se tornem crises evidentes e, muitas vezes, irreversíveis.

Nesse contexto, a ficção climática facilita o processo de imaginar o futuro, tornando-o mais “palpável” e menos longínquo. Por meio de metáforas e da criação de imagens vívidas, a ficção climática ajuda na construção de um cenário mais detalhado e menos vago sobre as consequências das mudanças climáticas. Também pode contribuir para modificar nossa percepção temporal, auxiliando na compreensão de como ações no presente podem produzir consequências no médio e longo prazo.

 

• Maior ativação da memória

Histórias marcantes ficam na memória. Quando os fatos sobre o clima são apresentados como narrativas, tendemos a registrar melhor a informação e mantê-la na memória por períodos mais longos de tempo. Dessa forma, ao criar imagens vívidas relacionadas às mudanças climáticas, a ficção climática facilita a lembrança de cenas que, em momentos-chave, podem inspirar mudanças de comportamento.

 

• Estímulo ao diálogo

Já sentiu vontade de compartilhar com alguém uma história que você leu ou um filme a que assistiu? Em uma pesquisa feita com 161 leitores de ficção climática, quase metade deles relatou que um livro lido foi assunto de conversas com amigos e parentes, o que facilitou o diálogo sobre as mudanças climáticas, especialmente com pessoas que têm opiniões distintas. Logo, a ficção climática pode ser uma forma de trazer as mudanças climáticas para o debate no dia a dia, incentivando, também, a ação coletiva.

 

• Empatia e solidariedade

A ficção climática cria personagens com os quais nos identificamos e pelos quais sentimos empatia, engajando-nos não apenas com a ciência do clima, mas também com as dimensões humanas, sociais e culturais do aquecimento global. Ao nos transportar para mundos paralelos, a ficção climática nos permite vivenciar diferentes realidades, mesmo que de forma temporária. Isso pode nos tornar mais conscientes, por exemplo, da vulnerabilidade populacional e das consequências muitas vezes negligenciadas das mudanças climáticas.

 

Obras de ficção climática: exemplos internacionais e brasileiros

A seguir, são listados dez livros classificados como ficção climática por abordarem algum aspecto relacionado ao aquecimento global e seus efeitos sobre a natureza e a sociedade. Confira:

 

• Deslumbramento, de Richard Powers (tradução de Santiago Nazarian)

Foca no aspecto humano das mudanças climáticas e aborda a angústia gerada pela crise ambiental, especialmente nas gerações mais jovens.

 

• A trama das árvores, de Richard Powers (tradução de Carol Bensimon)

Obra vencedora do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2019, tem lançamento previsto para abril de 2025 no Brasil. O livro acompanha nove americanos que são convocados por árvores (isso mesmo!) para enfrentar a destruição das florestas. O romance explora temas como ativismo ambiental, a interconexão entre os seres vivos e a relação da humanidade com a natureza.

 

• Faca de água, de Paolo Bacigalupi (tradução de Alexandre Raposo)

A história se passa num futuro árido, em que a água se torna a commodity mais valiosa do mundo e vira alvo de disputas.

 

• Solar, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster)

A história se passa no ano 2000, em um mundo povoado por más notícias sobre o aquecimento global. Nessa realidade, um cientista consagrado desenvolve uma pesquisa revolucionária sobre o uso da luz solar para a obtenção de energia limpa e barata a partir da água.

 

• As últimas crianças de Tóquio, de Yoko Tawada (tradução de Satomi Takano Kitahara)

O romance distópico se passa num futuro desolador, provocado pela crise climática, e conta a história da luta de um homem para manter seu bisneto vivo em meio à destruição do mundo natural.

 

• A Estrada, de Cormac McCarthy (tradução de Fernando Paz)

História em quadrinhos vencedora do Prêmio Pulitzer de Ficção em 2007. Apesar de não mencionar explicitamente as mudanças climáticas, é considerado um dos melhores romances já publicados sobre o tema. A narrativa se passa em um mundo devastado, sem fauna nem flora.

 

• Orbital, de Samantha Harvey (inédito no Brasil)

Vencedora do “Booker Prize 2024”, a obra deverá chegar ainda neste ano às livrarias brasileiras. O livro acompanha um dia na vida de seis astronautas e cosmonautas na Estação Espacial Internacional. Embora se passe no espaço sideral, a obra pode ser considerada cli-fi porque, ao observarem a Terra de uma perspectiva única, os personagens são levados a questionar como seria a vida sem o nosso planeta e quais as consequências da sua degradação pelas mudanças climáticas.

 

Apesar da maior parte das obras de cli-fi ser escritas em inglês, também há livros de autores brasileiros, que contam histórias que se passam em territórios familiares e conhecidos:

 

• Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão

Publicado em 1981, o livro conta a história de como seria o Brasil se a Amazônia fosse totalmente destruída. Nesse cenário distópico, os animais foram extintos, as pessoas passam fome e calor e as fontes de água potável secaram.

 

• Contra fogo, de Pablo L. C. Casella

A história é protagonizada por uma brigada voluntária de combate a incêndios florestais na Chapada Diamantina, na Bahia.

 

• Água turva, de Morgana Kretzman

O romance se passa no Parque Estadual do Turvo, na região noroeste do Rio Grande do Sul, uma reserva ambiental que guarda belezas naturais e grande biodiversidade e que, na história, se vê ameaçada pela ação humana e degradação ambiental.

 

Em síntese, a ficção climática utiliza o poder das histórias para transformar nossa percepção sobre as mudanças climáticas e nos aproximar de uma realidade em que a ação coletiva pode transformar a crise ambiental. Assim, as narrativas climáticas oferecem não só um alerta sobre o aquecimento global, mas também nos colocam diante de uma visão de reparo e renovação, sendo potenciais catalisadores para inspirar mudanças urgentes rumo a um futuro mais resiliente.

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

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Para citar este artigo:

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Emergência Climática: Como a Ficção Pode Inspirar a Ação no Mundo Real. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/ficcao-climatica. Acesso em: dd/mm/aaaa.

 

#MudançasClimáticas #ClimateChange #FicçãoClimática #CliFi #ClimateFiction #AçãoClimática #AçãoPeloClima

 

Fontes consultadas

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