Moda circular
Tendências sustentáveis frente à emergência climática
Em um minuto:
- A indústria têxtil e do vestuário é vital para a economia global, mas um dos seus principais desafios é lidar com o volume de resíduos produzidos. Somente no Brasil, foram 4,6 milhões de toneladas de lixo têxtil em 2023.
- Inspirada na economia circular, a moda circular propõe prolongar o ciclo de vida das roupas e tecidos por meio do design para a durabilidade, reutilização, reciclagem e uso de materiais de baixo impacto ambiental.
- A moda circular permite reduzir o volume de resíduos gerados pela indústria têxtil e do vestuário, o consumo de água e a poluição hídrica e mitigar as emissões de gases de efeito estufa.
- Os consumidores também fazem parte da moda circular: adotar hábitos como comprar menos e melhor, priorizar peças de segunda mão, consertar roupas e participar de programas de reciclagem é essencial para reduzir o impacto do setor.
- Desafios e oportunidades para a indústria: além de inovar com novos materiais e tecnologias limpas, o setor precisa ampliar o letramento em economia circular, com o apoio de governos, empresas, academia e sociedade civil.
As roupas, muitas vezes, vão além da proteção do corpo, fazendo parte da nossa identidade e estando presentes em diversos aspectos da vida cotidiana. Também sustentam um dos setores mais relevantes para a economia global: a indústria têxtil e do vestuário.
Nos últimos anos, porém, nossa relação com a moda mudou. A produção acelerada da fast fashion, com lançamentos frequentes de coleções, preços baixos e curta durabilidade, fez com que passássemos a comprar roupas, utilizá-las por pouco tempo e logo trocá-las por novas peças. Essa dinâmica tem trazido consequências, especialmente quanto ao volume de itens descartados: somente no Brasil, em 2023, cada pessoa jogou fora, em média, 21 quilos de têxteis, couro e borracha, o que representa cerca de 4,6 milhões de toneladas de lixo têxtil por ano no país.
No cenário global, a indústria do vestuário produz anualmente cerca de 100 bilhões de peças, gerando 92 milhões de toneladas de resíduos. Grande parte desse volume vai parar em aterros sanitários, lixões e até no mar. Além da problemática do lixo, a produção e o descarte intensivos de roupas podem contribuir para o agravamento da emergência climática. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima que a produção de roupas seja responsável por 2% a 8% das emissões globais de carbono.
Pilha de roupas descartadas no Deserto do Atacama, no Chile. A indústria da moda gera, atualmente, volumes massivos de resíduos em função dos hábitos de consumo modificados pela fast fashion e do modelo linear de produção, uso e descarte. IMAGEM: Phys.org
Diante desse cenário, emerge a necessidade de repensar o modelo atual e buscar caminhos para a moda mais sustentável.
O que é a moda circular?
Inspirada nos princípios da economia circular, a moda circular propõe a mudança no ciclo de vida das peças e se baseia na concepção, produção e consumo de roupas e acessórios de forma a minimizar o desperdício, a poluição e o uso de recursos naturais. Em vez de seguir o modelo linear de “produzir, consumir, descartar”, a moda circular cria um sistema cíclico em que as peças são projetadas para durar, ser reutilizadas, recicladas ou descartadas de forma segura após seu uso.
A moda circular se apoia ainda nos “3 Rs”: repensar, reutilizar e reciclar. Isso se traduz, na prática, no consumo consciente, que evita aquisições por impulso e preza por marcas alinhadas à sustentabilidade, e na expansão de iniciativas como compras em brechós, conserto e aluguel de roupas, desenho de coleções de longa durabilidade e produção com materiais reciclados ou de baixo impacto ambiental.
Outras abordagens também integram a moda circular. No conceito second-hand, por exemplo, peças usadas ganham vida nas mãos de outros consumidores, evitando o descarte precoce de itens que ainda apresentam boa qualidade. Já por meio do upcycling, resíduos têxteis e roupas que seriam descartadas são transformados em novas peças prontas para uso.
Benefícios ambientais e econômicos
A moda circular contribui para o enfrentamento de um dos maiores desafios do setor têxtil e do vestuário, o descarte de grandes quantidades de resíduos. Mais de 300 milhões de peças são descartadas anualmente no mundo, muitas delas feitas de materiais que podem levar centenas de anos para se decompor no ambiente. Ao prolongar a vida útil e promover a reciclagem e o reúso de peças e materiais utilizados para a confecção de roupas e acessórios, reduz-se a pressão sobre aterros, bem como a necessidade de extrair novas matérias-primas.
Outro ganho é a diminuição no uso de água e energia e na conservação dos recursos hídricos. A indústria têxtil consome 1,5 trilhão de litros de água por ano e responde por 20% da poluição industrial de fontes hídricas, principalmente em função do tingimento e processamento dos tecidos. Além disso, 10% dos microplásticos encontrados nos oceanos podem ter origem na lavagem de roupas produzidas com tecidos sintéticos, o que equivale a mais de 50 milhões de garrafas plásticas por ano. Ao preconizar o uso de materiais seguros para o meio ambiente e de tecnologias de produção limpa, a moda circular pode resultar na redução desses números.
No campo econômico, a moda circular representa um mercado potencial e em ascensão. Projeções da Fundação Ellen MacArthur indicam que, até 2030, as iniciativas de moda circular poderão movimentar US$ 700 bilhões e responder por 23% da indústria global de moda.
Ações para os consumidores
O consumidor é peça-chave na transformação da indústria da moda. Mudanças nos hábitos de compra e descarte de roupas podem reduzir significativamente a pegada ambiental associada ao vestuário. Entre as práticas recomendadas estão aproveitar ao máximo o que já se tem, priorizar produtos de segunda mão, apoiar marcas comprometidas com a circularidade, consertar peças com pequenas avarias e investir em roupas feitas para durar.
O crescimento dos brechós no Brasil é um exemplo positivo da mudança nos padrões de consumo. Em 2024, roupas adquiridas nesses estabelecimentos já representavam 12% do guarda-roupa dos brasileiros, e a previsão para 2025 é de que esse número suba para 20%, movimentando cerca de R$ 24 bilhões.
Também é possível partir para as alternativas de reaproveitamento, que incluem doar, vender ou trocar roupas usadas com outras pessoas. Além disso, os consumidores podem buscar programas de reciclagem de tecidos, roupas e acessórios, presentes em algumas cidades. Aqui, porém, ainda há lacunas: embora o potencial seja grande, apenas 1% das roupas descartadas globalmente são recicladas em novas peças, o que evidencia a urgência de ampliar essas iniciativas.
Estratégias e oportunidades para a indústria
Para as empresas, a moda circular pode representar uma oportunidade de inovação e fidelização de clientes. Marcas que adotam práticas circulares podem, por exemplo, transformar resíduos em insumos, criar linhas de produtos com base em fibras recicladas, investir no design para a durabilidade e desenvolver modelos de negócios baseados em aluguel ou recompra de peças usadas. Esse movimento acompanha a mudança de mentalidade no mercado, com consumidores cada vez mais dispostos a apoiar marcas comprometidas com práticas socioambientais responsáveis e investidores que veem na sustentabilidade um diferencial competitivo.
A transição para o modelo circular também envolve inovação tecnológica. Hoje, já existem tecidos feitos a partir de resíduos como fibras de bananeira (confira um dos cases abaixo), cascas de coco, folhas de abacaxi e resíduos de cana-de-açúcar. Outras tecnologias também podem ser aplicadas para diminuir o impacto ambiental da indústria têxtil e do vestuário, como o tingimento sem água.
Apesar das oportunidades, é necessário aumentar o letramento sobre economia circular na indústria. É preciso criar condições para que as empresas tenham acesso a conhecimento técnico, recursos e capacitação para aplicar os princípios circulares em larga escala. Isso envolve a atuação conjunta de governos, setor privado, instituições de ensino e sociedade para disseminar informações, compartilhar tecnologias e fomentar redes de colaboração.
Cases inspiradores
Conheça, a seguir, iniciativas brasileiras relacionadas à moda circular.
• SENAI CETIQT e Musa Fiber
Em parceria, as duas instituições desenvolveram um tecido feito a partir das fibras do caule da bananeira. O material é resistente, reciclável e apresenta preço competitivo. A abundância da bananeira no Brasil a torna uma alternativa promissora para substituir os tecidos convencionais.
O Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil – SENAI CETIQT, em parceria com a Musa Fiber, desenvolveu um tecido a partir dos resíduos da bananeira. IMAGEM: Agência de Notícias da Indústria
• Badu Design
Com sede em Curitiba, o negócio de impacto socioambiental atua no upcycling de resíduos têxteis industriais, além de capacitar mulheres em vulnerabilidade social em design circular e possibilitar a geração de renda a partir da produção de peças de alto valor agregado.
• no.wasTee
A fashiontech paranaense é focada no design zero desperdício. A startup é responsável pela criação de modelagens inovadoras para roupas, eliminando sobras de tecido na produção e oferecendo sua metodologia como serviço para outras empresas.
• Mabe Bio
A startup desenvolve biotecidos a partir de plantas nativas brasileiras, como o angico, reforçando a conexão entre inovação, biodiversidade e sustentabilidade. A partir do uso de materiais alternativos, é possível mitigar os impactos da indústria têxtil e poupar recursos não renováveis.
A startup Mabe Bio desenvolveu um biocouro a partir de plantas nativas brasileiras. O uso de materiais renováveis e de baixo impacto ambiental para a confecção de roupas é uma das estratégias da moda circular. IMAGEM: Mabe Bio/Agência Fapesp
Um ciclo que beneficia a todos
A moda circular convida a um novo jeito de pensar sobre o consumo. Ao integrar consumidores, indústria e governos em torno de práticas regenerativas, é possível reduzir o impacto ambiental da indústria da moda, ao mesmo tempo em que se abrem caminhos para a inovação e novos negócios. Num mundo pressionado pela emergência climática, vestir-se de forma consciente não é somente uma tendência, é urgência.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC).Moda circular – Tendências sustentáveis frente à emergência climática. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/moda-circular. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #EconomiaCircular #ModaCircular #CircularFashion
Fontes consultadas
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