A Nova Realidade do Esporte
Como as Mudanças Climáticas Afetam as Competições Esportivas
Em um minuto:
- Eventos extremos afetam as competições esportivas: na Copa do Mundo de Clubes da FIFA 2025, pelo menos seis partidas foram interrompidas por causa do calor excessivo, chuvas torrenciais e tempestades.
- Futebol sob risco crescente: um estudo aponta que 78% dos clubes das Séries A, B e C do Brasil estão em áreas vulneráveis a eventos climáticos severos, como enchentes e incêndios florestais.
- Atletas expostos a estresse térmico e a riscos climáticos: na Copa do Mundo de 2026 de futebol masculino, os jogadores poderão estar expostos a temperaturas elevadas, aumentando o risco de exaustão, insolação e queda de performance.
- Outros esportes e competições também são afetados: as Olimpíadas de Inverno recorrem à neve artificial por falta de neve natural, e os organizadores dos Jogos de Verão precisam lidar com o calor extremo, que impacta a saúde e o desempenho dos atletas.
- Impactos econômicos e operacionais: atrasos nas partidas afetam transmissões, contratos, logística e experiência do público. Organizações esportivas já discutem mudanças no calendário das competições e novos protocolos de segurança climática.
Quando a Copa do Mundo de Clubes da FIFA começou nos Estados Unidos em junho, a previsão indicava a possibilidade de calor extremo durante os jogos, mas o que se viu foi mais do que isso: tempestades, raios, chuvas torrenciais e partidas suspensas por até duas horas. Em pelo menos seis jogos, as condições climáticas interferiram na programação do evento, com impactos para os jogadores, torcedores e para toda a logística do torneio.
Um exemplo ilustrativo dos problemas enfrentados ocorreu durante a partida entre o clube brasileiro Palmeiras e o egípcio Al Ahly, em Nova Jersey. Além dos 30 °C registrados, os atletas precisaram interromper a partida por 46 minutos devido a tempestades. Os jogadores também precisaram fazer uma pausa para se refrescar em função do forte calor.
Durante o jogo das oitavas de final da Copa do Mundo de Clubes da FIFA 2025, entre Benfica e Chelsea, no Estádio Bank of America, em Charlotte, Carolina do Norte, a tela informava sobre o atraso na partida por causa das condições climáticas adversas. FONTE: Forbes/Buda Mendes/Getty Images
As interrupções de jogos durante a Copa do Mundo de Clubes de 2025 indicam que o clima pode estar se tornando um dos protagonistas das competições esportivas. À medida que a emergência climática avança, eventos extremos, como ondas de calor e fortes chuvas, tendem a se tornar mais frequentes e intensos. E, por isso, o planejamento de eventos esportivos de grande porte passa a exigir novas abordagens.
A expectativa é que a Copa do Mundo de 2026 de futebol masculino, que também será realizada nos Estados Unidos, além do México e Canadá, sofra com os mesmos problemas observados neste ano. Os riscos para a próxima edição do torneio são altos, e os jogadores poderão enfrentar forte estresse térmico em 10 dos 16 estádios da competição, segundo estudo publicado em 2024. Com a combinação entre elevadas temperaturas, previstas para algumas cidades-sede, e exercício físico intenso, é possível que os atletas sejam submetidos a temperaturas superiores a 49,5 °C durante a realização do maior evento do futebol mundial.
O cenário projetado coloca em dúvida o próprio calendário dos eventos. Especialistas sugerem que, em 2026, se repita o modelo da Copa do Mundo no Catar, em 2022, que foi transferida para os meses com temperaturas mais amenas para evitar o calor excessivo. Também defendem o uso de tecnologias para monitoramento corporal em tempo real, diretrizes claras para suspensão de jogos em caso de eventos extremos e colaboração entre federações esportivas sobre riscos relacionados ao calor e eventos climáticos adversos.
No Brasil, onde o futebol é uma das paixões nacionais, o impacto das mudanças climáticas também se torna cada vez mais evidente. Um relatório da consultoria ERM e do movimento Terra FC apontou que 8 em cada 10 clubes das séries A, B e C do Campeonato Brasileiro estão sediados em municípios vulneráveis a eventos climáticos severos nos próximos 25 anos.
O Rio Grande do Sul viveu um exemplo disso em 2024, quando inundações culminaram no adiamento de partidas e na realocação de jogos para estádios distantes das torcidas. A tendência é que esse tipo de evento se intensifique ao longo das próximas décadas, interferindo na regularidade das competições, no desempenho dos times e na segurança dos atletas e torcedores.
Mas não é apenas o futebol que sofre com os efeitos do clima. As Olimpíadas de Inverno de 2022, em Pequim, também enfrentaram dificuldades: a falta de neve natural associada à escassez hídrica fez com que os organizadores consumissem ao menos 49 milhões de galões de água para produzir neve artificial. Dentro de algumas décadas, é possível que poucas das antigas cidades-sede terão condições climáticas adequadas para sediar competições de esportes de inverno.
Já nas Olimpíadas de Paris, em 2024, o desafio foi o calor extremo. As competições ocorreram em meio a um dos verões mais quentes da história da capital francesa, e as soluções encontradas incluíram jogos no fim da tarde e à noite. Em alguns dias, os atletas e o público sofreram com o calor de mais de 37 °C, sob risco de desidratação e queda de performance.
As implicações para a saúde vão além do desconforto: as elevadas temperaturas podem afetar a função cardiovascular, reduzir a eficiência muscular e comprometer o raciocínio e o desempenho dos atletas. O corpo de um atleta em atividade físico pode produzir 15 a 20 vezes mais calor que o de uma pessoa em repouso. Sem condições adequadas de resfriamento, o risco de prejuízo à saúde é grande.
A emergência climática também tem um custo financeiro. Atrasos causados por tempestades ou outros fenômenos climáticos, como os registrados na Copa do Mundo de Clubes, afetam a transmissão para audiências globais, desorganizam calendários e reduzem o tempo de exibição das marcas patrocinadoras. Além disso, os organizadores podem precisar arcar com custos extras para garantir a segurança dos espectadores diante de eventos climáticos inesperados. Do ponto de vista da experiência do torcedor, longos atrasos também podem levar à evasão do público.
Para se ter ideia, somente considerando os impactos no futebol brasileiro em função do risco de enchentes, os custos totais estimados para reparo de infraestrutura, logística e perda de receita são projetados em R$ 2,91 bilhões nos próximos 25 anos, de acordo com o estudo “O Maior Adversário do Futebol: Impacto em Série”. Ainda de acordo com o relatório, com os riscos climáticos, os 60 times das Séries A, B e C poderiam perder R$ 68,8 bilhões em 25 anos em valor total.
Diante desse cenário, a pergunta não é mais se o clima vai afetar as competições, mas como o esporte vai responder às ameaças crescentes. Reavaliar calendários, criar protocolos de adiamento e cancelamento e incorporar dados climáticos aos planos estratégicos é essencial. Se o clima está mudando as regras do jogo, é hora de o esporte se adaptar para continuar em campo.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). A Nova Realidade do Esporte: Como as Mudanças Climáticas Afetam as Competições Esportivas. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/competicoes-esporte-mudancas-climaticas. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #MundialDeClubes #mundialdeclubes2025 #Esporte #EmergênciaClimática #Futebol #Olimpíadas #Copa2026 #ClimaExtremo
Fontes consultadas
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