Mudanças climáticas e saúde

A ascensão da dengue

Autor
Observatório Sistema Fiep - 18/11/2024

Fotografia de um tambor de metal contendo água parada e suja. No centro da imagem, aparece o título do texto “Mudanças climáticas e saúde: a ascensão da dengue”. Em primeiro plano, aparecem as logos “Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas Curitiba”, “Observatório Sistema Fiep” e “Sistema Fiep: Fiep, Sesi, Senai, IEL”.

No Dia Nacional de Combate à Dengue, celebrado este ano em 23 de novembro, reforçamos a importância de enfrentar esta doença que afeta milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Instituída pela Lei nº 12.235/2010, a data busca incentivar ações do Poder Público e mobilizar a população na luta contra o mosquito transmissor.

A dengue é a infecção viral mais comum transmitida por mosquitos, com até 400 milhões de casos no mundo por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde. Além dos efeitos na saúde, o impacto econômico da doença é significativo: somente nas Américas, a dengue representa custo estimado de 2,1 bilhões de dólares por ano, de acordo com um estudo publicado em 2010.

No Brasil, a situação também é alarmante: entre 2000 e 2024, houve aumento expressivo do número de casos e mortes por dengue. Com 6,5 milhões de casos prováveis e mais de 5 mil mortes confirmadas até junho de 2024, o Brasil enfrenta a maior epidemia de dengue da história. Em 25 anos, estima-se que 18 milhões de brasileiros foram infectados pelo vírus da dengue, resultando em 17.000 mortes.

Neste ano, o Brasil deve bater o recorde de infecções por dengue, com aumento de 300% no número de casos em comparação ao mesmo período de 2023. A taxa de mortes, que indica o número de óbitos para cada um milhão de habitantes, aumentou sete vezes em um ano, destacando a gravidade da epidemia no país.

Gráfico que relaciona o número de mortes por dengue no Brasil a cada 1 milhão de habitantes, entre 2000 e 2024. Em 2024, há um pico, correspondente ao aumento acentuado no número de mortes.

No gráfico, é apresentada a evolução da taxa de mortalidade por dengue no Brasil, expressa como o número de mortes a cada 1 milhão de habitantes. Em 2024, observa-se um pico, que reflete a maior epidemia de dengue já registrada no país. IMAGEM: traduzido e modificado de Gurgel-Gonçalves; Oliveira; Croda (2024)

A ascensão no número de casos, tanto no Brasil quanto no mundo, está relacionada às mudanças climáticas, à adaptação do mosquito transmissor e à crescente urbanização. Mas como esses fatores interagem para ampliar o risco da doença?

 

Calor, chuva e mosquito: por que o número de casos de dengue está aumentando

As mudanças climáticas, incluindo alterações nos padrões de chuva e eventos extremos, têm impactado o ciclo de vida e a distribuição do mosquito Aedes aegypti, principal vetor da dengue.

O aumento da temperatura global, que já ultrapassou 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais, juntamente com as variações no regime de chuvas, cria condições ideais para a reprodução do mosquito. As temperaturas mais elevadas e a ocorrência mais frequente de anomalias térmicas, especialmente durante as ondas de calor, aceleram o ciclo de desenvolvimento do mosquito, favorecendo a sua proliferação. Além disso, as temperaturas mais elevadas podem resultar no aumento da frequência de picadas e na redução do período necessário para a incubação do vírus da dengue dentro do organismo do mosquito.

As chuvas mais intensas e frequentes também podem levar ao acúmulo de água em diferentes ambientes, como recipientes e pneus, criando locais perfeitos para o mosquito depositar seus ovos.

Com o aumento da temperatura e da umidade, o mosquito tem expandido sua área de distribuição para regiões que antes não eram afetadas. Isso faz com que a dengue, que antes se concentrava em áreas tropicais, chegue a regiões de clima mais ameno, como no caso do Sul do Brasil.

Além disso, o aumento das temperaturas médias, inclusive no inverno, permite que o ciclo de reprodução do mosquito e a transmissão da dengue ocorram durante todo o ano, deixando de ser uma “doença de verão”.

Na figura, são apresentados três mapas do Brasil. O primeiro corresponde à incidência de dengue entre 2006 e 2006, o segundo 2007 e 2013 e o terceiro 2014 a 2020. A partir de 2007, a interpretação dos mapas permite inferir que houve aumento na incidência de casos de dengue no Brasil, sobretudo nas regiões Centro-Oeste e Sul.

Nos últimos anos, a dengue já se espalhou por todo o território brasileiro. Com o aumento das temperaturas, regiões que antes não eram afetadas, como o Sul do Brasil, passaram a ter elevada incidência de casos, como revela o gráfico. IMAGEM: traduzido e modificado de Barcellos et al. (2024)

As mudanças climáticas, portanto, criam condições mais favoráveis para a proliferação do mosquito, aumentando o número de casos de dengue e tornando os surtos mais frequentes. Esses fatores são preocupantes porque, com a expansão da área de risco, mais pessoas ficam expostas, tornando o controle da doença ainda mais complexo.

 

Prevenção e Cuidados em Tempos de Mudanças Climáticas

A dengue é uma doença viral causada por quatro sorotipos, que são diferentes “versões” do vírus da dengue. A doença é transmitida principalmente pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti. Quando infectada, a pessoa desenvolve imunidade apenas contra aquele sorotipo específico, mas não contra os outros, o que pode aumentar o risco de formas mais graves da doença, como a dengue hemorrágica, em infecções subsequentes.

Não há tratamento específico para a dengue, e quanto antes a infecção for detectada, menor o risco de agravamento da doença. Os principais sintomas incluem febre alta e repentina, manchas vermelhas na pele, dor de cabeça ou atrás dos olhos, dores no corpo, náusea e vômito. Caso apresente febre e outros sintomas, procure atendimento médico o mais rapidamente possível.

Além de ficar de olho na saúde, cada um de nós pode ajudar a evitar a proliferação do mosquito. Neste sentido, o Ministério da Saúde está promovendo a campanha “10 minutos contra a dengue”, recomendando práticas para prevenção dos focos do mosquito.

Ações recomendadas pelo Ministério da Saúde em sua campanha “10 minutos contra a dengue”. IMAGEM: captura de tela da página do Ministério da Saúde.

Ações recomendadas pelo Ministério da Saúde em sua campanha “10 minutos contra a dengue”. IMAGEM: captura de tela da página do Ministério da Saúde.

Além das medidas individuais e coletivas, a tecnologia e o planejamento adequado podem contribuir para o combate à dengue.

 

Combate à dengue: inovações e ações para a proteção da saúde

As estratégias de combate à dengue envolvem a combinação de tecnologia, ações públicas e engajamento da comunidade para reduzir a proliferação do mosquito Aedes aegypti e prevenir a transmissão da doença. Confira algumas delas:

 

Fábricas de mosquitos incapazes de se reproduzir

Uma das ações para reduzir a proliferação da dengue é a liberação de mosquitos estéreis no ambiente. Criados em laboratório, esses mosquitos não podem se reproduzir. Quando soltos, eles cruzam com as fêmeas, mas não geram descendentes, contribuindo para a redução da população do inseto.

Essa estratégia foi utilizada entre julho e dezembro de 2023, em Londrina (PR). Cerca de 8 milhões de mosquitos machos estéreis foram soltos em um bairro da cidade, que apresentava elevados índices de infestação da dengue. Após a soltura dos insetos, foi observada a redução de 85% no número de larvas do mosquito.

A pesquisa e o desenvolvimento científico também podem contribuir para as estratégias de combate à dengue. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, por exemplo, descobriram que, ao modificar geneticamente os mosquitos machos e “desativar” sua audição, eles ficaram impedidos de acasalar. Como esses insetos utilizam a audição para localizar as fêmeas, sendo atraídos pelo som das suas batidas de asas, torná-los surdos pode fazer com que deixem de se reproduzir.

No centro da fotografia, há um mosquito, visto de perto, pousado sobre uma folha vegetal.

Uma das estratégias para combate à dengue é a soltura de machos do mosquito Aedes incapazes de se reproduzir. IMAGEM: shammiknr/Pixabay

Controle biológico

Uma das principais “armas” para o controle biológico do mosquito são as bactérias do gênero Wolbachia. Elas são encontradas naturalmente no organismo da maioria dos insetos, mas não no do mosquito Aedes aegypti. Quando a Wolbachia é introduzida neles, os mosquitos infectados, chamados “Wolbitos”, não conseguem transmitir o vírus da dengue. Ao se reproduzirem, os Wolbitos geram descendentes que também contêm a bactéria e são, portanto, incapazes de causar infecção.

Essa estratégia já foi aplicada em várias cidades brasileiras, como Niterói (RJ), Campo Grande (MS), Belo Horizonte (MG), Petrolina (PE), Londrina (PR) e Foz do Iguaçu (PR).

Em Curitiba, está sendo construída a maior fábrica do mundo de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia. A fábrica deverá entrar em operação em 2025 e sua produção, por semana, é estimada em 100 milhões de ovos de mosquito contendo a bactéria.

 

Estações disseminadoras de larvicida

No Brasil, o Ministério da Saúde está adotando as estações disseminadoras de larvicida, principalmente para as periferias, como parte das ações do Plano de Ação para Redução da Dengue e outras Arboviroses.

As fêmeas do mosquito são atraídas para estas armadilhas, que contêm água armazenada em um pote plástico coberto por um tecido impregnado de larvicida em pó. Ao pousar na armadilha, partículas do larvicida grudam no corpo das fêmeas e são transportadas por elas para outros locais, inclusive potenciais criadouros. Então, as larvas do mosquito, expostas ao larvicida, que não faz mal para pessoas e animais, acabam morrendo. A expectativa é que esse método contribua para a redução de 28% no número de casos de dengue, e é especialmente relevante para locais populosos ou de difícil acesso.

 

Vacinas

A vacina contra a dengue é uma das ferramentas para reduzir a transmissão da doença, diminuindo o impacto das epidemias. Com a vacinação, é possível aliviar a pressão sobre os sistemas de saúde e prevenir complicações graves.

O Brasil foi o primeiro país do mundo a incluir uma vacina contra a dengue no sistema público de saúde, em dezembro de 2023. Além disso, há uma vacina brasileira sendo desenvolvida pelo Instituto Butantan. O imunizante está, atualmente, na fase 3 do ensaio clínico.

 

Uso de drones

O uso de drones equipados com câmeras pode ser eficaz no mapeamento de áreas de risco e na identificação de focos de água parada, onde os mosquitos podem se reproduzir.

Drones também podem ser usados para aplicar inseticidas em áreas de difícil acesso, aumentando a eficiência da erradicação do mosquito. Em Farroupilha (RS), por exemplo, uma ação de combate à dengue estava prevista para o mês de novembro, após o feriado de Finados. Os vasos de flores deixados em cemitérios, muito comuns nesta data, podem acumular água e servir como criadouros para o mosquito da dengue. Por isso, um drone foi adaptado para a pulverização de um biolarvicida em dois cemitérios da cidade. O equipamento permite cobrir uma área de até dois hectares (equivalente a 3 campos de futebol) em 10 minutos, o que agiliza a estratégia de combate ao vetor da dengue.

Os drones podem também ser utilizados para a soltura, de forma controlada, de mosquitos machos estéreis, contribuindo para a redução da população do inseto.

Posicionado no centro da fotografia, um drone com uma câmera instalada sobrevoa uma floresta.

Drones podem ser utilizados para monitoramento de áreas de risco, pulverização de larvicida em regiões de difícil acesso e soltura de machos estéreis do mosquito da dengue. IMAGEM: Pexels/Pixabay

Previsão e análise de riscos

Técnicas de mineração de dados, desenvolvimento de modelos matemáticos e estatísticos e algoritmos que simulam o comportamento do mosquito e sua resposta às mudanças climáticas ajudam a criar mapas de risco e a identificar áreas mais suscetíveis à proliferação, direcionando ações de controle com maior eficácia.

O InfoDengue, por exemplo, utiliza mineração de dados para disponibilizar informações e alertas de risco para arboviroses, incluindo a dengue. Os dados são provenientes principalmente de redes sociais, de notificações dos casos de dengue, de estações meteorológicas e de imagens de satélite. A partir deles, o sistema realiza a análise integrada dos dados epidemiológicos e climáticos e classifica a situação de determinado estado ou município conforme o nível de atenção necessário. É possível, inclusive, acessar relatórios em nível estadual ou mesmo municipal sobre a situação da dengue. Também é possível consultar a situação de outras arboviroses transmitidas pelo mosquito Aedes, isto é, chikungunya e zika.

O Ministério da Saúde também dispõe de um painel de monitoramento das arboviroses, incluindo a dengue, com dados separados por região e por estado.

Existem, ainda, iniciativas direcionadas às cidades, como no caso de Curitiba, em que a Prefeitura monitora os casos de dengue por meio de um painel eletrônico. O Painel de Monitoramento - Dengue – Curitiba disponibiliza atualização das notificações de casos confirmados e informações sobre a dengue na cidade.

Outro exemplo é de uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizada com base em modelos estatísticos, que indica que cada 1 °C de elevação na temperatura pode resultar no aumento de 40% no número de casos de dengue na cidade. Com essas informações e ferramentas, é possível prever cenários com maior precisão, ajudando os tomadores de decisão a se prepararem e adotarem medidas de prevenção e combate à dengue para um contexto local específico.

 

Investimentos públicos e planos de ação para enfrentamento da dengue

Os planos governamentais de ação e os investimentos públicos são fundamentais para enfrentar os desafios de saúde. Esses recursos são essenciais para direcionar as ações de combate à dengue com eficiência, garantindo que as soluções cheguem às populações mais vulneráveis.

O Governo Federal lançou, em 18 de setembro, o Plano de Ação para Redução da Dengue e de Outras Arboviroses. Este plano tem como base evidências científicas e inclui novas tecnologias para o combate da doença. Organizado em seis eixos principais — Prevenção, Vigilância, Controle de vetores, Organização dos serviços e manejo clínico, Preparação e resposta a emergências e Comunicação e participação comunitária —, o plano busca intensificar as ações de combate à dengue no segundo semestre do ano, período em que as condições climáticas favorecem a proliferação do mosquito Aedes aegypti e acarretam o aumento dos casos.

Além do plano de ação, o Ministério da Saúde está investindo mais de R$ 1,5 bilhão para o controle da dengue no período sazonal 2024/2025. Os recursos são destinados aos estados, municípios e Distrito Federal para ampliar a vigilância e melhorar o atendimento à população. Os recursos também serão investidos em novas tecnologias, como o método Wolbachia e as estações disseminadoras de larvicida.

 

Para combater o avanço da dengue em um contexto de mudanças climáticas, é essencial adotar uma abordagem integrada que combine ações individuais e coletivas. As novas tecnologias são grandes aliadas no combate à dengue, mas precisam estar associadas a políticas públicas eficazes e ao engajamento da sociedade. Somente com a mobilização conjunta do governo e da população, combinada ao uso da tecnologia, será possível reduzir os casos de dengue e proteger a saúde pública.

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

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Fontes consultadas

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