Mudanças Climáticas e Patrimônio Cultural

Eventos Extremos e os Riscos à Memória da Humanidade

Autor
Observatório Sistema Fiep - 12/05/2025

Em um minuto:

  • O patrimônio cultural — tanto material quanto imaterial — está em risco com o avanço das mudanças climáticas, que aceleram os processos de degradação e provocam perdas físicas e simbólicas ligadas à identidade e à memória coletiva.
  • Eventos extremos como enchentes e secas têm causado danos a museus, sítios históricos e tradições culturais mundo afora, como no caso do Rio Grande do Sul, na Amazônia e em cidades históricas de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.
  • A proteção do patrimônio cultural exige ações articuladas, incluindo o mapeamento de riscos, o uso de tecnologias de monitoramento e estratégias de conservação, preservação e restauração.
  • O envolvimento das comunidades e a valorização de saberes tradicionais são essenciais para integrar a cultura e os bens materiais e imateriais nas políticas climáticas e de desenvolvimento sustentável.
  • Ferramentas avançadas como escaneamento 3D, realidade virtual e análises não destrutivas já são utilizadas para preservar e documentar bens culturais ameaçados, reforçando a importância da ciência e da inovação nesse desafio global.

Secas prolongadas, ondas de calor e chuvas torrenciais são alguns dos fenômenos que têm se tornado cada vez mais comuns e intensos ao redor do mundo. Esses eventos climáticos extremos são manifestações das mudanças climáticas em curso, resultado do aumento da temperatura média global e de alterações nos padrões de precipitação, umidade do ar e dinâmica dos ventos. Além de afetar a biodiversidade, a agricultura, a saúde humana e a produção industrial, esses eventos colocam em risco algo muitas vezes negligenciado nas discussões sobre o clima: o patrimônio cultural da humanidade.

O patrimônio cultural é o conjunto de bens, práticas e valores que representam a identidade, a memória e os modos de vida de diferentes grupos sociais ao longo do tempo. Ele é composto por elementos materiais, como edificações, sítios arqueológicos, monumentos, museus, bibliotecas e artefatos como livros e obras de arte, e por elementos imateriais, como saberes tradicionais, festas, danças, rituais, músicas e formas de expressão transmitidas de geração em geração. Também se inclui nesse conceito o patrimônio natural com valor simbólico ou cultural, como paisagens consideradas sagradas ou territórios com significados históricos.

Além de guardarem o registro da história humana, esses bens materiais e imateriais dão sentido de pertencimento às comunidades, contribuem para a diversidade cultural e funcionam como ferramentas sociais, educativas e econômicas. A importância de preservar esse patrimônio cultural foi até mesmo reconhecida nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente na meta 11.4, que propõe “fortalecer esforços para proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundo”.

Os elementos do patrimônio cultural estão expostos naturalmente a processos de degradação – como a ação do tempo, umidade, vento ou variações normais de temperatura. Contudo, com as mudanças climáticas, esses processos deletérios se aceleram e novos riscos surgem, aumentando a vulnerabilidade dos bens e práticas culturais. Em 2005, inclusive, o Comitê do Patrimônio Mundial, órgão da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), reconheceu oficialmente as mudanças climáticas como uma ameaça emergente à conservação dos sítios culturais e naturais. Estimativas da UNESCO indicam que um sexto dos sítios de patrimônio cultural no mundo está atualmente em risco em função dos fenômenos associados à emergência climática, e esse número deverá crescer à medida que o aquecimento global se intensifica.

Ainda que se reconheça o impacto ambiental, econômico e social do aquecimento global, os riscos à memória, à identidade e às expressões culturais dos povos são, muitas vezes, pouco debatidos. Porém, proteger o patrimônio cultural é também resguardar os vínculos que sustentam comunidades, o conhecimento tradicional que contribui para a resiliência climática e os ativos simbólicos e econômicos que estão na base de setores como o turismo e a cultura.

 

Impactos das mudanças climáticas no patrimônio cultural

As mudanças climáticas afetam o patrimônio cultural — tanto material quanto imaterial — por meio de estressores ambientais como a elevação da temperatura e as alterações nos padrões de umidade e precipitação. Esses fenômenos podem provocar a degradação física dos bens materiais, deslocamentos populacionais e até a perda de tradições culturais.

No caso dos bens materiais, como construções históricas, monumentos e sítios arqueológicos, a variação de temperatura e umidade pode causar danos estruturais. Materiais como pedra, madeira, argamassa e metais podem sofrer com rachaduras, corrosão, desintegração e proliferação de micro-organismos e insetos. O acúmulo de umidade e a erosão causada pelo vento também são exemplos de processos que aceleram a deterioração desses bens.

Ambientes internos, como os de museus e de arquivos históricos, também são vulneráveis aos fenômenos climáticos. Variações na umidade relativa e na temperatura interna favorecem, por exemplo, o crescimento de microrganismos, o que compromete a qualidade de pinturas, documentos e obras delicadas.

Além disso, eventos extremos como enchentes, deslizamentos de terra e secas prolongadas colocam em risco tanto as edificações quanto os solos que as sustentam. No outro extremo, as secas e a falta de umidade, mais frequentes em função das mudanças climáticas, também desafiam a conservação do patrimônio cultural, pois podem causar rachaduras nas fundações de edifícios históricos e levar à subsidência das estruturas. Outra ameaça associada às mudanças climáticas é a elevação do nível do mar, que pode atingir patrimônios culturais situados em áreas costeiras.

No campo do patrimônio imaterial, os impactos podem ser igualmente relevantes. A degradação do patrimônio cultural pode comprometer práticas que dependem da interação com o território, como festas e modos de vida tradicionais. Quando eventos extremos forçam migrações, há também o risco de rompimento dos laços culturais e de perda da identidade coletiva, além de ameaças à transmissão de conhecimentos, práticas e expressões culturais.

 

Exemplos dos impactos das mudanças climáticas ao patrimônio cultural

As mudanças climáticas têm causado impactos sobre o patrimônio cultural em diversas partes do mundo. Um caso emblemático é o de Veneza, na Itália, onde a elevação do nível do mar e as marés anormalmente altas, associadas à subsidência natural da cidade, têm intensificado episódios de inundação que comprometem a infraestrutura histórica. Atualmente, a Praça de São Marcos, um dos pontos históricos da cidade, chega a ser inundada centenas de vezes por ano. Esse cenário alerta para os riscos enfrentados por cidades costeiras que abrigam patrimônios culturais, como Rio de Janeiro, Recife e Santos (SP), onde há significativo acervo histórico e arquitetônico.

No Brasil, os eventos climáticos extremos também vêm afetando os bens culturais materiais e imateriais. Em 2024, as chuvas torrenciais no Rio Grande do Sul atingiram dezenas de museus, bibliotecas, aldeias indígenas e centros culturais. Na Amazônia, a seca prolongada dos últimos dois anos afetou os modos de vida ribeirinhos e comprometeu tradições locais como a pesca artesanal. Já na região Sudeste, tempestades e deslizamentos de terra em 2022 e 2023 provocaram danos irreversíveis a casarões históricos em cidades como Petrópolis e Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, e em Ouro Preto (MG).

 

Soluções para a proteção do patrimônio cultural frente à emergência climática

A proteção do patrimônio cultural frente às mudanças climáticas exige soluções articuladas que integrem diferentes campos do conhecimento, tecnologias e níveis de atuação, do local ao global. Um dos primeiros passos é reconhecer a importância do patrimônio cultural nos debates e planos de enfrentamento das mudanças climáticas. Isso significa incorporar os bens culturais — materiais e imateriais — nas estratégias de desenvolvimento sustentável, gestão territorial e políticas de adaptação e mitigação.

Nesse contexto, o mapeamento e o monitoramento contínuo dos riscos climáticos aos bens culturais são fundamentais. A identificação de sítios e objetos ameaçados, bem como a avaliação de sua vulnerabilidade, permite a adoção de medidas preventivas mais eficazes. Tecnologias como sensoriamento remoto, inteligência artificial, imagens de satélite e sensores climáticos têm contribuído para o rastreamento de mudanças nos ambientes internos e externos ao longo do tempo, possibilitando respostas mais ágeis para a conservação e prevenção de danos ao patrimônio cultural.

As estratégias de resposta podem ser classificadas em três grandes frentes complementares: conservação, preservação e restauração. A conservação envolve intervenções técnicas para estabilizar, reparar e manter bens culturais, preservando sua integridade física e valor histórico. Já a preservação se concentra em medidas proativas e preventivas que garantem a sustentabilidade do bem no longo prazo, como documentação, avaliação de riscos e controle ambiental. Por fim, a restauração visa recuperar a aparência ou função original de um bem.

Em alguns casos, soluções simples — como coberturas protetoras em sítios arqueológicos, como no templo Ħaġar Qim em Malta — podem ser eficazes na proteção física dos bens culturais frente às intempéries. IMAGEM: Elena Sesana

A crescente complexidade dos impactos climáticos exige também o fortalecimento da pesquisa interdisciplinar e a valorização de diferentes saberes. Projetos que conectem áreas como arquitetura, engenharia, arqueologia, ciências ambientais e sociais ajudam a entender melhor as dinâmicas entre cultura e clima, promovendo soluções mais robustas e contextualizadas.

Nesse processo, a participação pública e a inclusão social são essenciais. O engajamento de comunidades locais, por exemplo, amplia a legitimidade das ações e incorpora visões e práticas fundamentais para a adaptação e resiliência climáticas. O próprio patrimônio imaterial — como saberes e modos de vida — desempenha um papel importante, oferecendo formas de lidar com crises, promover o cuidado coletivo e manter o sentido de pertencimento.

As tecnologias avançadas também têm importância crescente na proteção do patrimônio cultural. Ferramentas como escaneamento 3D, modelagem digital, realidade virtual e aumentada permitem a documentação e o acesso remoto a bens culturais, inclusive em contextos de risco. Técnicas analíticas não destrutivas, como raio-X, sensoriamento remoto e radar de penetração no solo, possibilitam a análise estrutural sem danificar os objetos. Análises químicas e físico-químicas por espectroscopia, microscopia e cromatografia ajudam a compreender os processos de degradação dos bens materiais e orientar decisões técnicas. Além disso, plataformas digitais e sistemas de gestão de dados têm facilitado o compartilhamento de informações e o planejamento colaborativo entre especialistas e instituições que fazem a gestão desses patrimônios.

A integração entre patrimônio cultural e ação climática ainda é incipiente em muitos contextos, mas algumas iniciativas já vêm sendo desenvolvidas. No Brasil, por exemplo, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) lançou em 2023 o "Ciclo de Diálogos sobre Patrimônio Cultural e Ações Climáticas", promovendo debates sobre os desafios e as soluções para proteger bens culturais materiais e imateriais diante das mudanças do clima.

Em nível municipal, algumas cidades brasileiras têm incorporado preocupações com o patrimônio cultural em seus planos de desenvolvimento urbano, embora essa integração ainda seja mais comum em planos diretores do que em planos climáticos específicos. A cidade de São Paulo, por exemplo, incluiu em sua revisão do Plano Diretor Estratégico, sancionada em 2023, diretrizes para a valorização cultural, a preservação ambiental e o reconhecimento de territórios tradicionais, como aldeias indígenas e comunidades quilombolas.

A intensificação dos desastres naturais e do aquecimento global reforça a urgência de coordenar políticas públicas que envolvam o patrimônio cultural em planos de mitigação, preparação e adaptação. Proteger esse patrimônio não é apenas uma questão de memória ou identidade, mas também de resiliência coletiva, afinal, a cultura oferece não apenas bens históricos a serem preservados, mas também soluções para enfrentar um futuro climático incerto.

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

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Para citar este artigo:

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Mudanças Climáticas e Patrimônio Cultural: Eventos Extremos e os Riscos à Memória da Humanidade. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/patrimonio-cultural-mudancas-climaticas. Acesso em: dd/mm/aaaa.

 

#MudançasClimáticas #ClimateChange #PatrimônioCultural #PatrimonioHistorico #CulturaEmRisco #ODS11 #ClimaECultura #WorldHeritage #WorldHeritageSite #unesco #iphan

 

Fontes consultadas

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