Poluição sonora

Desafios para a saúde pública e o bem-estar coletivo

Autor
Observatório Sistema Fiep - 25/08/2025

Em um minuto:

  • A poluição sonora é uma forma altamente prejudicial de poluição urbana e é causada principalmente pelo tráfego intenso, realização de obras, uso de sirenes e equipamentos industriais.
  • A exposição prolongada a ruídos pode afetar a saúde e a qualidade de vida, com efeitos que incluem estresse crônico, distúrbios do sono, aumento do risco de doenças cardiovasculares e transtornos mentais.
  • Os impactos vão além da saúde humana: o barulho excessivo também pode desorientar animais, prejudicar ecossistemas e reduzir a biodiversidade urbana.
  • As soluções para o combate à poluição sonora incluem investimentos em infraestrutura urbana promotora de bem-estar, uso de tecnologias mais silenciosas, revisão da legislação e fortalecimento da fiscalização, campanhas de conscientização e mudanças nos hábitos individuais.

Quando pensamos em poluição no ambiente urbano, é comum imaginarmos a poluição atmosférica ou o lixo presente em rios e ruas. Porém, há uma forma invisível e persistente de poluição que atravessa nosso cotidiano sem que muitas vezes nos demos conta: a poluição sonora. Mais do que um incômodo pontual, o excesso de ruído nas cidades é um problema crescente de saúde pública.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), considera-se poluição sonora a presença de ruídos ou vibrações que causam impactos negativos na saúde humana e nos ecossistemas. Nos centros urbanos, os principais contribuintes são o tráfego intenso, obras, buzinas, sirenes e equipamentos industriais.

Em termos técnicos, sons acima de 65 decibéis (dB), que é a medida do “volume” ou “altura”, já são classificados como potencialmente prejudiciais à saúde auditiva. Mas não é apenas a intensidade do ruído que importa, e o tempo de exposição é igualmente determinante. Quanto mais alto o barulho, menor deve ser o intervalo ao qual permanecemos expostos a ele.

Conheça alguns exemplos de ruídos e sua intensidade:

  • 10 dB: respiração normal
  • 20 dB: tique-taque de relógio
  • 30 dB: sussurro
  • 40 dB: área residencial silenciosa
  • 50 dB: nível máximo de ruído recomendado
  • 60 dB: conversa normal
  • 70 dB: carro ou aspirador de pó a 3 metros de distância
  • 75 dB: despertador
  • 80 dB: ônibus, secador de cabelo e tráfico urbano intenso
  • 85 dB: liquidificador
  • 100 dB: britadeira e motocicleta
  • 105 dB: volume máximo habitual de fones de ouvido
  • 110 dB: shows musicais
  • 120 dB: decolagem de avião comercial
  • 140 dB: fogos de artifício a 1 metro de distância
  • 170 dB: disparo de arma de fogo

No Brasil, existem normas, como as NBR 10.151:2019 e 10.152:2017, que estabelecem limites de ruído para diferentes tipos de áreas e ambientes, por exemplo, entre 45 e 50 dB em zonas estritamente residenciais ou de escolas e hospitais. Ainda assim, esses padrões são frequentemente ultrapassados, sobretudo nas grandes cidades.

 

Impactos da poluição sonora

A OMS classifica a poluição sonora como a segunda forma mais nociva de poluição ambiental, atrás apenas da poluição do ar. Com base em uma estimativa da própria OMS, realizada em 2011, somente na Europa Ocidental, pelo menos um milhão de anos de vida saudável são perdidos a cada ano devido ao excesso de ruídos, principalmente em decorrência do tráfego intenso.

A exposição prolongada ao excesso de ruídos pode ter efeitos que se estendem além do comprometimento da audição. Em curto prazo, incluem irritabilidade, fadiga, dificuldade de concentração e distúrbios do sono. Em longo prazo, podem resultar em hipertensão, maior propensão a infartos e doenças cardiovasculares, transtornos de ansiedade, depressão e déficit cognitivo. De acordo com o relatório “Noise, Blazes and Mismatches: Emerging Issues of Environmental Concern”, publicado em 2022 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), na Europa, a exposição prolongada ao ruído ambiental se correlaciona ao desenvolvimento de 48 mil novos casos de doenças cardíacas isquêmicas por ano e em 12 mil mortes prematuras. O barulho também estimula a produção de cortisol, hormônio ligado ao estresse, que, por sua vez, pode resultar no enfraquecimento do sistema imunológico e abrir portas para infecções.

Em crianças, a poluição sonora pode afetar o desenvolvimento neurológico. Em ambientes escolares e universitários, o excesso de ruído prejudica a concentração, a memória e o raciocínio. Já no ambiente de trabalho, pode reduzir a produtividade e elevar o risco de acidentes.

Mas não é somente a saúde e o bem-estar humanos que sofrem os impactos da poluição sonora. O fenômeno também pode comprometer o equilíbrio ecológico e afetar os ecossistemas. Sons intensos e frequentes podem desorientar animais silvestres, alterar seu comportamento e interferir em suas rotas migratórias. O resultado pode ser o abandono de habitats e a redução da biodiversidade local. As aves, por exemplo, são particularmente sensíveis: em áreas urbanas com muito ruído, muitas deixam de nidificar ou migram para ambientes mais silenciosos, rompendo cadeias alimentares.

Embora menos discutido, o impacto econômico da poluição sonora também pode ser relevante. Imóveis localizados em áreas mais barulhentas tendem a desvalorizar-se no mercado, gerando prejuízos para proprietários. O barulho também pressiona os sistemas de saúde com o aumento do número de casos de doenças associadas, elevando os gastos públicos e privados com tratamentos.

 

O que pode ser feito?

Combater a poluição sonora demanda a combinação de políticas públicas, uso de tecnologias e mudanças de comportamento. Algumas estratégias para mitigar os seus impactos incluem:

 

• Adaptação da infraestrutura urbana: algumas medidas incluem a instalação de barreiras acústicas em avenidas e rodovias e o incentivo à eletrificação da frota (veículos elétricos são ,em geral, mais silenciosos). Outra opção para as cidades é investir na arborização urbana. Árvores com copas densas funcionam como isolantes naturais de sons, ajudando a reduzir o ruído urbano.

• Revisão da legislação e maior fiscalização: apesar de existirem normas, a falta de cumprimento e fiscalização prejudica sua efetividade. Por isso, é necessário atualizar leis mais antigas, estabelecer limites claros para o controle da poluição sonora e educar os responsáveis por atividades produtoras de ruídos.

• Educação e conscientização: campanhas públicas são fundamentais para mostrar que o barulho em excesso também adoece. Ações como a “Caminhada Silenciosa pela Despoluição Sonora”, que reuniu cidadãos na Avenida Paulista no dia 17 de agosto deste ano, mostram a importância da mobilização da sociedade.

• Mudanças individuais: buscar momentos de silêncio sempre que possível, utilizar dispositivos como protetores auriculares e abafadores de ruído, criar ambientes mais calmos em casa e usar tecnologias que alertam sobre níveis de ruído são ações que podem ser adotadas em nível individual para a minimização dos impactos da poluição sonora na saúde.

• Tecnologia e inovação: para a indústria, algumas possibilidades são investir em maquinário mais silencioso, realizar a manutenção preventiva de equipamentos e isolar fontes de ruído para que ele não se propague pelo ambiente.

 

A poluição sonora urbana é um desafio complexo e, muitas vezes, negligenciado. Mas, embora invisível, essa forma de poluição se manifesta de maneira crescente em nossas cidades. Seus efeitos vão além do incômodo momentâneo e podem comprometer a saúde física e mental da população, afetar a biodiversidade e gerar custos econômicos.

Felizmente, já há soluções disponíveis para enfrentar a poluição sonora, que vão desde intervenções na infraestrutura urbana e revisão de legislações até ações de conscientização e uso de tecnologias mais silenciosas. Reconhecer o barulho como um agente poluidor é um passo fundamental para cidades mais saudáveis e habitáveis. Silenciar os excessos do cotidiano urbano não significa renunciar à vitalidade das cidades, mas sim proteger aquilo que elas têm de mais valioso, a saúde e o bem-estar de quem as habita.

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

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Para citar este artigo:

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Poluição sonora - Desafios para a saúde pública e o bem-estar coletivo. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/poluicao-sonora. Acesso em: dd/mm/aaaa.

 

#MudançasClimáticas #ClimateChange #PoluiçãoSonora #SaúdeUrbana #BemEstarUrbano #SaúdePública #NoisePollution #UrbanNoise

 

Fontes consultadas

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