17 de junho - Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca

A Restauração de Terras como Estratégia diante da Emergência Climática

Autor
Observatório Sistema Fiep - 17/06/2025

Em um minuto:

  • No dia 17 de junho, é celebrado o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, data instituída pela ONU para alertar sobre a degradação dos solos e a escassez de água, agravadas pelas mudanças climáticas e por práticas humanas insustentáveis.
  • 75% dos solos do planeta já estão degradados, e esse número pode chegar a 90% até 2050, se nada for feito. Em 2023, 1 em cada 4 pessoas no mundo foi afetada por estiagens severas.
  • No Brasil, mais de 1,4 milhão de km² estão suscetíveis à desertificação, afetando 38 milhões de pessoas em mais de 1.500 municípios, principalmente no semiárido nordestino, mas também em outras regiões.
  • A restauração de terras degradadas é uma solução viável e estratégica: recupera ecossistemas, fortalece comunidades e contribui para a segurança alimentar, hídrica e climática.
  • Para ter impacto real, é necessário ampliar investimentos, fortalecer políticas públicas e integrar saberes tradicionais com inovação tecnológica, com ações locais e cooperação internacional.

No dia 17 de junho é celebrado o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca. Oficialmente instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1994, a data marca um esforço internacional para enfrentar dois processos críticos associados à emergência climática: a degradação dos solos e a escassez de água.

A cada ano, a data é organizada em parceria com um país anfitrião e serve como plataforma global para destacar soluções de combate à desertificação, à degradação de terras e aos efeitos da seca. Em 2025, a Colômbia sediará as celebrações, sob o lema proposto para este ano: “Restaurar a terra. Liberar oportunidades.”

A desertificação não se refere apenas à expansão dos desertos e engloba também a degradação de terras em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas. Esse processo é impulsionado por fatores climáticos e, sobretudo, por práticas humanas inadequadas, como o desmatamento ilegal, o manejo insustentável do solo e a gestão ineficiente dos recursos hídricos. Entre as consequências da desertificação estão a queda na produtividade agrícola, a perda de biodiversidade, a escassez de água, o aumento da vulnerabilidade das populações e a migração forçada, elementos que podem agravar desigualdades sociais e gerar conflitos pelo acesso aos recursos naturais.

Diante dos amplos impactos desses fenômenos, o combate à desertificação e à seca deve ser encarado como uma das prioridades para o enfrentamento da emergência climática e para a promoção do desenvolvimento sustentável. Solos saudáveis são a base para a segurança alimentar, a disponibilidade de água, a estabilidade climática e a prosperidade social. Nesse sentido, a restauração de terras degradadas, tema das celebrações em 2025, é vista como uma estratégia de desenvolvimento econômico e social capaz de gerar renda, estimular economias locais e promover a resiliência das comunidades e dos ecossistemas.

 

Desertificação e seca: desafios globais com impactos crescentes

A desertificação e a intensificação da seca são fenômenos globais alarmantes. De acordo com o Atlas Mundial da Desertificação, cerca de 75% dos solos do planeta já estão degradados, afetando diretamente 3,2 bilhões de pessoas. Caso as tendências atuais se mantenham, esse número pode chegar a 90% até 2050.

Mais da metade do PIB global depende de serviços ecossistêmicos, mas a degradação do capital natural segue em ritmo acelerado. De acordo com dados da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD, da sigla em inglês), o mundo perde anualmente cerca de 100 milhões de hectares de terras produtivas, o que equivale a quatro campos de futebol de terras saudáveis por segundo.

As secas extremas também estão se intensificando. Em 2023, uma em cada quatro pessoas no planeta foi afetada por estiagens severas, aumento de quase 30% em relação ao ano 2000. A expectativa é que 75% da população mundial esteja exposta a secas até 2050 se não houver mudanças significativas. O custo dessas estiagens já chega a 300 bilhões de euros por ano, segundo a ONU, e tende a crescer com o avanço das mudanças climáticas.

Apesar da abundância de recursos hídricos, o Brasil também enfrenta desafios relacionados à seca e à desertificação. A escassez de chuvas e a degradação dos solos vêm se intensificando e ampliando suas áreas de ocorrência, afetando a produção agrícola nacional, a saúde dos ecossistemas, a segurança alimentar e a qualidade de vida de milhões de pessoas. O que antes era considerado um fenômeno mais restrito ao semiárido nordestino agora se espalha por outras regiões do país, como o Centro-Oeste e o Sudeste.

As áreas suscetíveis à desertificação no Brasil já somam mais de 1,5 milhão de km² e abrangem mais de 1.600 municípios, afetando 18% do território nacional. Nessas regiões vivem aproximadamente 38 milhões de pessoas. Os territórios mais acometidos pela seca e pela desertificação no Brasil concentram 85% da pobreza do país, demonstrando como a desertificação é também um problema social e econômico, além de ambiental.

 

As mudanças climáticas como agravantes da desertificação e da seca

As mudanças climáticas têm ampliado os riscos de desertificação e secas prolongadas no Brasil e no mundo. Embora a desertificação seja causada também por fatores como o desmatamento ilegal e o uso inadequado do solo, o aquecimento global atua como agravante, acelerando a degradação das terras.

Com o aumento das temperaturas e a redução da umidade do solo, eventos extremos como secas prolongadas se tornaram mais frequentes e severos. Dados globais mostram que, entre 2018 e 2022, as áreas afetadas por secas cresceram, em média, 74% em comparação com o período de 1981 a 2017. No Brasil, em 2023, a Amazônia, por exemplo, enfrentou uma seca histórica, impactando ecossistemas e comunidades locais.

À medida que as mudanças climáticas avançam, espera-se que as secas se tornem mais longas e intensas, afetando a produção agrícola, a segurança hídrica e a biodiversidade. A desertificação, nesse contexto, não é apenas um problema ambiental, mas também um desafio social e econômico urgente, que demanda ações integradas baseadas em ciência, políticas públicas e práticas sustentáveis de uso da terra.

 

Soluções para restaurar as terras degradadas

Apesar da gravidade do avanço da desertificação, há caminhos disponíveis para reverter esse cenário. A restauração de terras degradadas pode levar décadas, mas é possível e vale o investimento, pois estima-se que cada dólar aplicado nela pode gerar entre US$ 7 e US$ 30 em retornos econômicos.

A restauração das terras degradadas abrange um conjunto integrado de práticas que promovem a saúde dos ecossistemas e a sustentabilidade da produção agrícola. Envolve ações como o reflorestamento, o manejo sustentável do solo, a recuperação da vegetação nativa, a conservação dos recursos hídricos e a adoção de sistemas agrícolas sustentáveis, como a agroecologia e a agricultura regenerativa. As tecnologias também são aliadas no combate à desertificação, a exemplo dos drones e satélites que vêm sendo usados para mapear áreas degradadas, monitorar o crescimento da vegetação e otimizar o uso dos recursos naturais.

Para viabilizar as estratégias de combate à desertificação e à seca, é preciso também ampliar os investimentos, que hoje representam apenas uma fração do necessário. A Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) estima que serão precisos US$ 1 bilhão por dia entre 2025 e 2030 para frear a desertificação global e restaurar os ecossistemas terrestres em larga escala. Atualmente, porém, são gastos somente cerca de US$ 0,18 bilhão diariamente para essas finalidades.

No Brasil, políticas públicas e projetos estão sendo implementados para reverter o avanço da degradação de terras. O Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB Brasil 2024), atualmente em construção, tem horizonte de 20 anos e articula estratégias de restauração, adaptação climática e desenvolvimento rural em áreas críticas.

Em síntese, a restauração de terras degradadas, apoiada por práticas agrícolas sustentáveis e pelo uso de tecnologias, surge como uma estratégia para recuperar a produtividade dos solos, preservar a biodiversidade e assegurar a segurança hídrica e alimentar. Entretanto, para que esses esforços alcancem escala e impacto reais, é imprescindível ampliar os investimentos e fortalecer a cooperação entre governos, setor privado e comunidades locais. Neste 17 de junho, que possamos refletir, agir e plantar as bases de um amanhã mais fértil, justo e resiliente!

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

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Para citar este artigo:

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). 17 de junho - Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca: A Restauração de Terras como Estratégia diante da Emergência Climática. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/combate-desertificacao-seca. Acesso em: dd/mm/aaaa.

 

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Fontes consultadas

AGÊNCIA CÂMARA DE NOTÍCIAS. Desertificação aumenta no Brasil em meio a alerta da ONU sobre seca em escala planetária. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1072212-desertificacao-aumenta-no-brasil-em-meio-a-alerta-da-onu-sobre-seca-em-escala-planetaria/. Acesso em: 9 jun. 2025.

BARRENSE, H./ECOA UOL. Brasil pode ter deserto? O que se sabe sobre degradação no semiárido. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2025/01/13/brasil-pode-ter-deserto-o-que-se-sabe-sobre-degradacao-no-semiarido.htm. Acesso em: 9 jun. 2025.

CHERLET, M.; HUTCHINSON, C.; REYNOLDS, J.; HILL, J.; SOMMER, S.; VON MALTITZ, G. (Eds.). World Atlas of Desertification. Luxemburgo: Publication Office of the European Union, 2018. Disponível em: http://wad.jrc.ec.europa.eu. Acesso em: 9 jun. 2025.

CLIMAINFO. Mais um fracasso: COP16 de combate à desertificação termina sem acordo. Disponível em: https://climainfo.org.br/2024/12/16/mais-um-fracasso-cop16-de-combate-a-desertificacao-termina-sem-acordo/. Acesso em: 9 jun. 2025.

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