Ciência cidadã

Engajamento social na resposta à emergência climática

Autor
Observatório Sistema Fiep - 09/02/2026

Em um minuto:

  • A ciência cidadã amplia a capacidade de resposta à emergência climática e ambiental ao envolver a sociedade na produção de dados, garantindo maior cobertura territorial, diversidade de informações e base empírica robusta para pesquisas científicas em áreas como clima, biodiversidade e meio ambiente.
  • Ao aproximar o público do fazer científico, a ciência cidadã fortalece o letramento climático e ambiental, promove inclusão e engajamento social e transforma conceitos abstratos em fenômenos observáveis no cotidiano, estimulando a responsabilidade compartilhada e a ação informada.

A emergência climática e ambiental impõe desafios que ultrapassam fronteiras institucionais, disciplinares e geográficas. Monitorar fenômenos, entender impactos locais e responder às transformações em curso exige algo que a ciência tradicional, sozinha, nem sempre consegue oferecer: escala e capilaridade. É nesse contexto que a ciência cidadã ganha relevância.

A ciência cidadã refere-se à participação ativa de amadores na produção e no uso do conhecimento científico. Os “cidadãos cientistas” atuam como observadores e coletores de dados, seguindo metodologias definidas por pesquisadores ou construídas de forma colaborativa. Com o apoio de ferramentas como aplicativos, plataformas digitais e celulares, qualquer pessoa pode registrar informações e submetê-las pela internet. O resultado é a geração de um grande volume de dados, recolhidos em diferentes lugares e contextos, que fortalece a base empírica para a realização de pesquisas científicas em múltiplas áreas.

Embora o termo tenha se popularizado nos últimos anos, a prática não é nova. O avanço das tecnologias de informação e comunicação (TIC) permitiu que iniciativas locais se conectassem entre si e passassem a alimentar bases de dados cada vez maiores, ampliando o alcance e o impacto das observações feitas pelo público. Hoje, a ciência cidadã é especialmente associada a pesquisas em biodiversidade, clima e meio ambiente, mas também se estende a áreas como saúde, bem-estar e ciências sociais. Ela também está ligada ao movimento de ciência aberta, que busca tornar a produção científica mais transparente, colaborativa e interdisciplinar.

Mais do que gerar dados, a ciência cidadã aproxima a sociedade do fazer científico. Ao participar de um projeto de pesquisa, os cidadãos desenvolvem habilidades de observação e interpretação de informações, fortalecendo o letramento em temas como mudanças climáticas. Esse aprendizado “mão na massa” ajuda a traduzir conceitos abstratos, como aquecimento global, emissões e biodiversidade, em fenômenos observáveis no cotidiano. Ao mesmo tempo, promove a inclusão, o engajamento social e o senso de responsabilidade compartilhada.

Do ponto de vista das políticas públicas, os dados coletados por cidadãos podem subsidiar decisões baseadas em evidências e conhecimentos locais, muitas vezes ausentes em bases oficiais. Em um cenário de mudanças climáticas, em que os impactos variam de região para região, a informação com recorte territorial é especialmente valiosa.

Alguns exemplos brasileiros ilustram o crescimento da ciência cidadã. O WikiAves, maior banco de dados sobre aves do país, reúne mais de seis milhões de registros de fotos e sons, enviados por mais de 55 mil observadores. Esses dados são utilizados em pesquisas sobre distribuição geográfica, migração e conservação de habitats.

Outro caso emblemático é o programa Observando os Rios, da Fundação SOS Mata Atlântica. Desde 1993, voluntários monitoram a qualidade da água de rios, córregos e outros recursos hídricos usando uma metodologia padronizada. Hoje, mais de dois mil participantes acompanham cerca de 110 corpos d’água em 16 estados e no Distrito Federal, produzindo uma das séries históricas mais relevantes sobre a qualidade das águas na Mata Atlântica.

Já no contexto das cidades, o Pomar Urbano, desenvolvido por pesquisadores da USP, mobiliza a população para mapear plantas frutíferas usando a plataforma iNaturalist. O projeto combina participação popular, conservação da biodiversidade urbana e reflexão sobre o uso consciente dos recursos naturais.

Essas iniciativas se apoiam em uma estrutura institucional e tecnológica cada vez mais articulada. O Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), por exemplo, funciona como um hub nacional, integrando dados de várias fontes e permitindo que registros de ciência cidadã alimentem bases oficiais usadas na gestão ambiental. Plataformas como a Cívis e a Rede Brasileira de Ciência Cidadã fortalecem o ecossistema, conectando projetos, pesquisadores e voluntários. A criação do Instituto Nacional de Ciência Cidadã, por sua vez, consolida esse movimento e sinaliza o reconhecimento institucional da área no país.

Apesar dos avanços, alguns entraves ainda devem ser tratados. Entre eles, está a qualidade dos dados, que pode variar conforme o nível de treinamento dos participantes, e a concentração de observações em áreas urbanas, que pode gerar vieses. Superar essas limitações exige investimento em capacitação, metodologias claras e validação científica. A inclusão também é um ponto crítico: a desigualdade no acesso à tecnologia, questões éticas e a proteção de dados precisam ser abordadas para que a ciência cidadã seja, de fato, democrática.

Ainda assim, no contexto do Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável, a ciência cidadã se destaca como uma das formas de transformar engajamento social em impacto positivo. Ao unir ciência, participação popular e ação local, ela reforça nossa capacidade coletiva de compreender e enfrentar a emergência climática e ambiental, não como espectadores, mas como protagonistas informados.

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

Para receber e-mails com as notícias, cadastre-se aqui.

 

Para citar este artigo:

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Ciência cidadã - Engajamento social na resposta à emergência climática e ambiental. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/ciencia-cidada. Acesso em: dd/mm/aaaa.

 

#MudançasClimáticas #ClimateChange #CiênciaCidadã #CiênciaAberta #AçãoClimática #Biodiversidade

 

Fontes consultadas

ALBAGLI, S./REVISTA CIÊNCIA E CULTURA. Ciência cidadã: conceitos e práticas. Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/monitoramento/conteudo/artigos-Monitora/Cinciacidad_conceitoseprticasRevista.pdf. Acesso em: 3 fev. 2026.

DIAS, R./ECODEBATE. A importância da Ciência Cidadã no enfrentamento das mudanças climáticas. Disponível em: https://www.ecodebate.com.br/2024/10/30/a-importancia-da-ciencia-cidada-no-enfrentamento-das-mudancas-climaticas/. Acesso em: 3 fev. 2026.

SILVA, J./JORNAL DA USP. Pomar Urbano: ciência cidadã é ferramenta de conservação da biodiversidade na cidade. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/pomar-urbano-ciencia-cidada-e-ferramenta-de-conservacao-da-biodiversidade-urbana/. Acesso em: 3 fev. 2026.

SISTEMA DE INFORMAÇÃO SOBRE A BIODIVERSIDADE BRASILEIRA. Ciência cidadã. Disponível em: https://sibbr.gov.br/cienciacidada/oquee.html. Acesso em: 3 fev. 2026.


Mais Notícias