Secas e queimadas
Novo protocolo reforça resposta a emergências climáticas e a seus impactos na indústria
Em um minuto:
- Secas e queimadas deixaram de ser eventos isolados e se tornaram mais frequentes e intensas, com impactos sistêmicos sobre a saúde pública, a qualidade do ar, a segurança hídrica e o funcionamento da economia, incluindo o setor industrial.
- A combinação entre seca, calor e fogo pode agravar doenças respiratórias e cardiovasculares, levar ao aumento no número de internações e mortalidade e gerar efeitos indiretos como insegurança alimentar, perda de renda e impactos na saúde mental.
- Para responder a emergências relacionadas a secas e queimadas, o SESI, em parceria com o Ministério da Saúde e a Sanofi, lançou um protocolo para a indústria baseado em diagnóstico, ações integradas e gestão de riscos à saúde, orientando empresas a incorporar eventos climáticos extremos ao planejamento estratégico e à continuidade operacional.
Diante do avanço das mudanças climáticas, eventos como secas prolongadas e queimadas deixaram de ser episódios pontuais para assumir caráter estrutural, impondo riscos persistentes e interconectados a diversos setores da sociedade. Esses fenômenos extremos afetam a saúde da população, a qualidade de vida e o funcionamento de setores estratégicos da economia, como a indústria.
A seca, em particular, caracteriza-se por sua evolução lenta e cumulativa. Seus efeitos se acumulam ao longo do tempo, muitas vezes de forma pouco perceptível nos estágios iniciais, até comprometer o acesso à água, a produção de alimentos e as condições básicas de subsistência. Quando associada ao aumento das temperaturas, cria-se um ambiente propício para a ocorrência de queimadas. Esse processo estabelece um ciclo de retroalimentação: a redução das chuvas favorece o ressecamento da vegetação, que se torna combustível para o fogo; por sua vez, os incêndios intensificam o calor e agravam as condições para novos focos. Esse padrão tem se tornado mais frequente e severo em escala global. No Brasil, a combinação entre diversidade climática e grande extensão territorial amplia a exposição à interação entre a seca, o calor e as queimadas em diferentes regiões.
De acordo com o Panorama dos Desastres no Brasil (2013-2023), publicado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), a seca e a estiagem são os desastres naturais que mais impactam as pessoas no país, tendo atingido mais da metade da população brasileira no período avaliado. Além disso, o aumento da intensidade e da frequência das ondas de calor e as mudanças no uso do solo criam condições favoráveis à propagação de incêndios florestais e queimadas, especialmente na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Mesmo biomas historicamente menos suscetíveis a esses fenômenos, como a Mata Atlântica, já registram eventos recorrentes, indicando que o problema se tornou sistêmico.
Os impactos desses fenômenos extrapolam o campo ambiental. A combinação entre seca, fogo e fumaça representa um risco à saúde humana. A poluição gerada pelas queimadas e incêndios florestais contém partículas finas e gases tóxicos que podem penetrar no sistema respiratório. Evidências científicas associam a exposição a essas substâncias ao aumento de doenças cardiovasculares e respiratórias, como asma e doenças pulmonares obstrutivas crônicas (DPOCs), além de maiores taxas de internação e mortalidade.
As doenças respiratórias figuram entre as principais causas de morte no mundo, e, no Brasil, a dimensão do problema também é significativa. De acordo com dados do Painel de Monitoramento do Ar e seus Impactos na Saúde Respiratória, criado pelo SESI em parceria com a Sanofi, entre 2021 e 2024, mais de 255 mil óbitos no país estiveram relacionados às DPOCs. A piora na qualidade do ar, influenciada por secas e queimadas, também está ligada ao aumento de hospitalizações e afastamentos do trabalho.
A seca também está associada a uma série de outros agravos à saúde, como desidratação e insolação. Além disso, a escassez hídrica eleva o risco de doenças infecciosas, enquanto seus efeitos indiretos incluem insegurança alimentar, perda de renda e impactos sobre a saúde mental, especialmente entre populações mais vulneráveis. Trata-se, portanto, de um problema multifacetado, cujos impactos extrapolam a saúde pública e se estendem também à dinâmica econômica. No setor industrial, por exemplo, as consequências aparecem na redução da produtividade, no aumento dos custos assistenciais e na interrupção de cadeias logísticas.
Diante desse quadro, o Serviço Social da Indústria (SESI), em parceria com o Ministério da Saúde e com apoio da farmacêutica Sanofi, lançou o Protocolo de Resposta às Emergências Climáticas por Secas e Queimadas. Apresentada durante o 11º Congresso de Inovação da Indústria, em março de 2026, a iniciativa busca fortalecer a capacidade de enfrentamento de eventos extremos no país.
O protocolo está estruturado em três frentes principais. A primeira envolve o diagnóstico, com mapeamento das áreas mais vulneráveis a secas e queimadas, sazonalidade dos eventos e impactos à saúde. A segunda trata da implementação de ações integradas, incluindo a definição de níveis de prontidão, rotinas operacionais, governança e articulação com o Sistema Único de Saúde, Defesa Civil e corpos de bombeiros. A terceira aborda os agravos à saúde, com diretrizes específicas para o atendimento de doenças respiratórias e cardiovasculares, além de atenção a grupos vulneráveis e à saúde mental.
O documento também orienta empresas a incorporarem riscos climáticos ao planejamento estratégico, integrando medidas de prevenção, preparação e recuperação aos seus planos de continuidade operacional. Isso inclui desde o monitoramento de condições ambientais até a proteção da saúde dos trabalhadores e da infraestrutura produtiva.
Algumas ferramentas disponíveis reforçam essa abordagem. O painel de monitoramento da qualidade do ar, desenvolvido pelo SESI, cruza dados ambientais com indicadores de saúde e previdência, permitindo identificar como a poluição impacta custos, internações e afastamentos. Já plataformas como o AlertAr, da Fiocruz, oferecem previsões e alertas sobre a qualidade do ar, apoiando a tomada de decisões preventivas.
A mobilização da indústria, nesse contexto, ultrapassa o interesse setorial e reflete a necessidade de respostas coordenadas diante de riscos que atravessam fronteiras geográficas e sociais. Com o avanço das mudanças climáticas, secas e queimadas deixam de ser eventos isolados e passam a se tornar mais frequentes, intensas e com impactos cada vez mais abrangentes. Por isso, antecipar ocorrências e estruturar ações será decisivo não apenas para proteger vidas, mas também para garantir a resiliência dos sistemas produtivos.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Secas e queimadas - Novo protocolo reforça resposta a emergências climáticas e a seus impactos na indústria. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/sesi-lanca-protocolo-resposta-secas-queimadas-industria. Acesso em: dd/mm/aaaa.
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Fontes consultadas
OEIRAS, B./AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA. SESI firma parcerias para enfrentar emergências climáticas. Disponível em: https://www.cnsesi.com.br/noticias/1917/. Acesso em: 27 mar. 2026.
SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA (SESI). DEPARTAMENTO NACIONAL. Protocolo de respostas às emergências climáticas por secas e queimadas. Brasília: 2026. Disponível em: https://www.portaldaindustria.com.br/publicacoes/2026/3/protocolo-de-respostas-emergencias-climaticas-por-secas-e-queimadas/. Acesso em: 27 mar. 2026.