Dia da Indústria

Como a mitigação e a adaptação climática podem fortalecer a competitividade, a inovação e a resiliência produtiva no Brasil

Autor
Observatório Sistema Fiep - 25/05/2026

Em um minuto:

  • A indústria tem peso central na economia brasileira, mas enfrenta riscos crescentes relacionados ao clima. O setor responde por cerca de 25% do PIB nacional, 21% dos empregos formais e mais de 11 milhões de postos de trabalho. A emergência climática pressiona a produção ao afetar a disponibilidade de água, o suprimento de energia, a infraestrutura, a logística, as cadeias de suprimento, os custos operacionais e a saúde dos trabalhadores.
  • Eventos extremos já geram perdas econômicas relevantes e afetam a atividade industrial. Secas e chuvas extremas, por exemplo, retiram cerca de R$ 110 bilhões por ano do PIB brasileiro, valor que pode chegar a R$ 145 bilhões anuais em um cenário de aquecimento de 2 °C. No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024 afetaram 81% das indústrias, e 63% tiveram paralisação parcial ou total das atividades.
  • A transição verde industrial combina mitigação, adaptação climática e novas oportunidades de emprego. O Plano Setorial de Indústria prevê teto de emissões de 198 milhões de toneladas de CO₂ equivalente até 2030 e participação superior a 65% de fontes renováveis no consumo energético industrial. Apesar dos desafios de financiamento, tecnologia e capacitação, o Brasil pode criar 7 milhões de empregos verdes até 2030 e 15 milhões até 2050.

Celebrado em 25 de maio, o Dia da Indústria reconhece um dos setores mais importantes para o desenvolvimento econômico brasileiro. A indústria responde por cerca de 25% do PIB nacional e 21% dos empregos formais do país, o equivalente a mais de 11 milhões de postos de trabalho. Seu efeito multiplicador também é expressivo, pois a cada real produzido pelo setor, outros R$ 2,44 são movimentados na economia, impacto superior ao observado na agropecuária e no comércio e serviços.

O papel estratégico da indústria para o desenvolvimento do país, porém, passa a ser cada vez mais pressionado pela emergência climática. As mudanças do clima afetam a indústria de diferentes formas, reduzindo a previsibilidade da oferta de água e energia, aumentando riscos sobre a infraestrutura, interrompendo rotas logísticas, alterando cadeias de suprimento, elevando custos operacionais e comprometendo a saúde e a segurança dos trabalhadores. Em alguns segmentos, como cimento, aço, químicos, vidro e papel e celulose, o desafio é ainda maior, pois são abarcadas atividades intensivas em energia e com processos de difícil abatimento de emissões.

Quando essas vulnerabilidades são agravadas pela ocorrência de eventos extremos, os efeitos podem rapidamente se traduzir em perdas econômicas. Relatórios do Centro Internacional Celso Furtado (CICEF), com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), indicam que secas e chuvas extremas já retiram cerca de R$ 110 bilhões por ano do PIB brasileiro. Em um cenário de aquecimento global de 2 °C, essas perdas poderiam chegar a R$ 145 bilhões anuais. Embora os impactos sejam diferentes entre setores, a indústria também é atingida, e perdas em infraestrutura, energia, transporte, produtividade e fornecimento de insumos se propagam ao longo das cadeias produtivas.

As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 são um exemplo que revela a exposição da atividade industrial a choques climáticos. Pesquisa da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) mostrou que 81% das indústrias gaúchas consultadas foram afetadas pelas inundações, e 63% sofreram paralisação parcial ou total das atividades. Os principais problemas envolveram logística para escoamento da produção e recebimento de insumos, dificuldades com trabalhadores e fornecedores atingidos e perda de estoques, máquinas, equipamentos e instalações físicas. O episódio mostrou que eventos climáticos extremos ultrapassam a dimensão ambiental e humanitária e podem interromper operações, desorganizar cadeias produtivas e dificultar a recuperação econômica regional. Além disso, esses fenômenos tendem a ganhar escala: entre 1991 e 2023, mais de 26 mil eventos extremos foram registrados no país, afetando mais de 80% dos municípios brasileiros. A frequência dessas ocorrências também aumentou significativamente, com média atual sete vezes superior à observada nos anos 1990.

A experiência gaúcha e a previsão de agravamento dos eventos extremos reforçam que a gestão de riscos climáticos precisa entrar no núcleo da estratégia industrial, combinando mitigação, adaptação e inovação. A mitigação envolve reduzir emissões de gases de efeito estufa por meio, por exemplo, do uso de fontes renováveis de energia, da substituição gradual de combustíveis fósseis, da adoção de biocombustíveis e da aplicação de tecnologias de baixo carbono. Já a adaptação exige mapear riscos climáticos, proteger ativos críticos, fortalecer planos de contingência, investir em segurança hídrica, revisar padrões construtivos e incorporar dados climáticos ao planejamento de investimentos. Por fim, a inovação é o eixo que conecta essas frentes, viabilizando o desenvolvimento de novos materiais e processos produtivos mais limpos, a digitalização, o monitoramento de riscos e a criação de modelos de negócio menos dependentes de recursos naturais escassos.

No Brasil, a transição verde começa a ganhar estrutura institucional com o Plano Clima e o Plano Setorial de Indústria, elaborados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços como contribuição à estratégia nacional de mitigação das mudanças climáticas. O plano estabelece um teto de 198 milhões de toneladas de CO₂ equivalente para as emissões brasileiras até 2030 e aponta a meta de participação superior a 65% de fontes renováveis no consumo total de energia da indústria nos próximos dez anos. Entre as alavancas prioritárias previstas para o setor industrial estão a promoção da economia circular e o uso de matérias-primas alternativas, a substituição gradual de combustíveis fósseis por fontes como biomassa, biogás e hidrogênio, a eletrificação e o aumento da eficiência energética dos processos industriais, a aplicação de tecnologias de captura, uso e armazenamento de carbono (CCUS, sigla em inglês), o fortalecimento da gestão de resíduos industriais e a descarbonização de segmentos de difícil abatimento.

O atingimento das metas e a implementação das ações de mitigação e adaptação, dependem, contudo, de condições técnicas, financeiras e institucionais ainda em construção. O próprio Plano Setorial aponta obstáculos existentes, como a necessidade de capacitar a força de trabalho, os altos custos de modernização tecnológica, as barreiras de acesso a financiamento e os desafios específicos de setores intensivos em energia. Para avançar, será preciso aumentar investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, fortalecer parcerias estratégicas e criar instrumentos capazes de reduzir riscos para empresas de diferentes portes.

Ao mesmo tempo, a transição industrial de baixo carbono abre oportunidades econômicas e de emprego. O Plano Clima destaca a importância da transição justa, com geração de postos de trabalho qualificados, inclusão produtiva e redução de desigualdades regionais. Embora os empregos verdes ainda representem cerca de 2,8% da população ocupada em 2025, o Brasil pode criar 7 milhões de vagas verdes até 2030 e 15 milhões até 2050. Para a indústria, esse potencial está ligado a áreas como energias renováveis, economia circular, bioeconomia, mercados de carbono, construção verde, veículos elétricos, gestão de resíduos, reciclagem, reúso de água e tecnologias de baixo carbono.

A agenda climática, portanto, não se limita à redução de impactos ambientais. Para a indústria brasileira, ela se tornou uma estratégia de resiliência, produtividade e permanência competitiva em mercados cada vez mais regulados por critérios de baixo carbono. Adaptar-se ao novo clima implica proteger empregos, reduzir perdas econômicas, manter cadeias produtivas em operação e preparar o país para um ciclo de desenvolvimento mais seguro, inovador e sustentável.

 

Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.

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Para citar este artigo:

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Dia da Indústria - Como a mitigação e a adaptação climática podem fortalecer a competitividade, a inovação e a resiliência produtiva no Brasil. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/dia-da-industria-2026. Acesso em: dd/mm/aaaa.

 

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Fontes consultadas

CLIMA INFO. Desastres causados por clima extremo triplicaram na última década no Brasil. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/07/03/desastres-causados-por-clima-extremo-triplicaram-na-ultima-decada-no-brasil/. Acesso em: 18 mai. 2026.

CLIMA INFO. Desastres climáticos fazem Brasil perder R$ 110 bilhões do PIB por ano. Disponível em: https://climainfo.org.br/2026/04/21/desastres-climaticos-fazem-brasil-perder-r-110-bilhoes-do-pib-por-ano/. Acesso em: 18 mai. 2026.

CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA. Soluções climáticas abrem caminhos para o crescimento. Disponível em: https://cni.portaldaindustria.com.br/meio-ambiente-e-sustentabilidade/mudanca-do-clima. Acesso em: 19 mai. 2026.

MÁXIMO, W./AGÊNCIA BRASIL. Enchentes paralisaram 63% das indústrias gaúchas, revela pesquisa. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2024-06/enchentes-paralisaram-63-das-industrias-gauchas-revela-pesquisa. Acesso em: 18 mai. 2026.

MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS. Plano Setorial da Indústria fortalece a descarbonização com transição justa. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2026/marco/plano-setorial-da-industria-fortalece-a-descarbonizacao-com-transicao-justa. Acesso em: 18 mai. 2026.

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE E MUDANÇA DO CLIMA. Plano Clima Mitigação: Plano Setorial de Indústria. Brasília, DF : MMA ; MCTI ; MDIC ; CC/PR, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/mudanca-do-clima/plano-setorial-industria.pdf. Acesso em: 19 mai. 2026.

OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Empregos verdes - Como a emergência climática está redefinindo carreiras. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/empregos-verdes-2026. Acesso em: 18 mai. 2026.

SANTOS, P./CNN BRASIL. Mudanças climáticas podem cortar 20% do PIB do Brasil até 2050, diz Moody's. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/mudancas-climaticas-podem-cortar-20-do-pib-do-brasil-ate-2050-diz-moodys/. Acesso em: 18 mai. 2026.


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