Emergência climática e a escalada dos eventos extremos
O que as ondas de calor na Europa indicam sobre o futuro do clima global
Em um minuto:
- A Europa vive uma escalada de eventos extremos: ondas de calor, incêndios florestais e tempestades vêm se intensificando ano após ano no continente. Junho de 2025 foi o mês mais quente já registrado na Europa Ocidental, marco alcançado pelo terceiro ano consecutivo.
- O continente europeu pode estar aquecendo mais rapidamente que a média global: o Mar Mediterrâneo atingiu até 5 °C acima do normal, contribuindo para fenômenos extremos e chuvas intensas, como as que paralisaram a Catalunha em julho.
- As ondas de calor já afetam bilhões de pessoas: entre maio de 2024 e maio de 2025, quase metade da população mundial sofreu com pelo menos 30 dias de calor extremo, com impactos sobre a saúde, principalmente de idosos e populações vulneráveis.
- Setores estratégicos também estão em risco: as elevadas temperaturas, associadas à seca, ameaçam a agricultura e o fornecimento de água e energia, levantando preocupações sobre a segurança hídrica e alimentar global.
- A crise climática exige mais que adaptação: é urgente reduzir emissões de gases de efeito estufa, visto que os extremos registrados na Europa são um alerta para o mundo todo, inclusive para o Brasil.
Enquanto várias cidades brasileiras registram temperaturas amenas durante o inverno, o verão europeu tem dado sinais da nova realidade climática: ondas de calor, incêndios florestais, tempestades e uma escalada de eventos extremos que se repete com mais intensidade a cada ano. O mês de junho de 2025 foi identificado como o mais quente já registrado na Europa Ocidental, marco atingido pelo terceiro ano consecutivo, o que pode ser um indicativo da aceleração das mudanças climáticas em escala global.
Segundo dados do serviço climático Copernicus, da União Europeia, a Europa está aquecendo de duas a três vezes mais rápido do que a média global. O Mar Mediterrâneo, que banha países europeus como Espanha, França, Itália e Grécia, também tem batido recordes: com suas águas até 5 °C acima do normal, criou-se um ambiente mais úmido e quente, que favorece a ocorrência de fenômenos climáticos severos nas regiões próximas.
As notícias relacionadas aos extremos climáticos no continente europeu têm se acumulado. Em Portugal e na Espanha, por exemplo, os termômetros chegaram aos 46 °C, com sensação térmica de até 48 °C. Na França, cerca de 1.900 escolas foram fechadas no início de julho por conta do calor, enquanto na Itália, foram impostas restrições à realização de atividades ao ar livre.
Entre junho e julho de 2025, a capital francesa foi colocada sob alerta vermelho para calor extremo em função das ondas de calor que marcam o verão europeu. IMAGEM: Ludovic Marin/AFP/Getty Images/CNN
As ondas de calor, porém, não são os únicos eventos extremos em evidência na Europa. Na Grécia, chamas na ilha de Creta forçaram a evacuação de milhares de pessoas, enquanto ventos fortes espalhavam o fogo por áreas montanhosas. A Alemanha também registrou incêndios florestais que, inclusive, deixaram bombeiros feridos em ações de combate ao fogo. Em Marselha, no sul da França, um incêndio florestal de grandes proporções destruiu, em poucas horas, mais de 700 hectares, além de espalhar fumaça pela região.
As tempestades e inundações também podem ter relação com a emergência climática. Na Espanha, recentemente, chuvas torrenciais causaram alagamentos, deixaram dois desaparecidos e paralisaram o sistema ferroviário na Catalunha por várias horas. A tempestade, causada por uma DANA (Depressão Atmosférica em Níveis Altos), ocorreu devido ao encontro de massas de ar frio em altitude com as águas anormalmente quentes do Mediterrâneo, fenômeno que pode estar se tornando mais comum com o avanço do aquecimento global.
Barcelona, na Espanha, sofreu recentemente com fortes chuvas, que provocaram inundações. IMAGEM: Albert Llop/NurPhoto/Shutterstock/The Telegraph
As ondas de calor e outros eventos extremos estão se tornando mais frequentes, intensos e duradouros em vários países por causa das mudanças climáticas. Um relatório elaborado por especialistas da World Weather Attribution, do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e da Climate Central concluiu que, entre maio de 2024 e maio de 2025, mais de 4 bilhões de pessoas (quase metade de população mundial) experimentaram pelo menos 30 dias de calor extremo. O estudo reporta ainda que em 195 países, a emergência climática dobrou a quantidade de dias de calor extremo em comparação a um mundo sem aquecimento global.
Apesar de seus impactos serem menos visíveis do que os causados por furacões, enchentes ou incêndios florestais, as ondas de calor estão entre os eventos climáticos mais letais, produzindo efeitos silenciosos sobre a saúde da população. Um estudo do Imperial College London e da London School of Hygiene & Tropical Medicine estimou que, apenas entre os dias 23 de junho e 2 de julho deste ano, cerca de 2.300 mortes foram registradas em decorrência do calor em cidades europeias como Barcelona, Madri e Londres. Destas, aproximadamente 1.500 (65%) estariam diretamente relacionadas à emergência climática. A maioria das vítimas (9 em cada 10) tinha 65 anos ou mais. A pesquisa também apontou que as emissões de combustíveis fósseis aumentaram em até 4 °C a temperatura média das ondas de calor analisadas.
As altas temperaturas afetam principalmente idosos, pessoas com doenças preexistentes, trabalhadores expostos ao sol e populações sem acesso adequado a infraestrutura, saúde e moradia, aumentando o risco de problemas cardiovasculares, dificuldades respiratórias e morte prematura. Nas áreas urbanas, os impactos podem ser ainda maiores: o calor compromete o desempenho físico e cognitivo, reduzindo a produtividade em escolas e nos ambientes de trabalho.
Os efeitos das mudanças climáticas e, em particular, das temperaturas elevadas afetam também o funcionamento de setores estruturantes da sociedade. Ainda citando a Europa como exemplo recente, nos Bálcãs Ocidentais, a seca severa ameaça a agricultura e compromete o fornecimento de energia. Para se ter ideia do impacto, na Albânia, a escassez de chuvas reduziu drasticamente o volume dos rios, forçando a importação de eletricidade e pressionando a economia local. Na Inglaterra, pelo menos três ondas de calor colocaram o país em estado de alerta para uma possível seca prolongada. No território inglês, 2025 já figura como o ano mais seco desde 1976, colocando a segurança alimentar e hídrica de algumas partes do país sob risco.
Diante do cenário de emergência global, é necessário acelerar as medidas de adaptação, que envolvem desde a adoção de sistemas de alerta precoce de eventos extremos e a implantação de infraestrutura resiliente até a criação de redes de proteção social.
Contudo, somente a adaptação não será suficiente. Sem uma transformação estrutural focada na redução das emissões de gases de efeito estufa, os eventos extremos provavelmente se intensificarão ainda mais, além de se tornarem mais frequentes. Globalmente, é necessário, entre outras medidas, promover a transição energética justa e descarbonizar progressivamente os setores produtivos. Mitigar as causas da crise climática é a única forma de limitar os danos futuros e preservar condições de vida minimamente seguras e saudáveis para todos.
Os recordes climáticos são alertas, não apenas para os países europeus afetados recentemente, mas para todo o planeta. E embora os impactos sejam sentidos de forma distinta em diferentes regiões do globo, nenhum lugar está imune à nova realidade climática. O que acontece em Lisboa, Marselha ou Barcelona, por exemplo, é, em muitos aspectos, um espelho do que pode ocorrer no Brasil. Ignorar esses sinais é desperdiçar a chance de agir antes que os extremos se tornem o novo normal.
Para mais conteúdo relacionado às mudanças climáticas, acesse o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas de Curitiba neste link.
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Para citar este artigo:
OBSERVATÓRIO SISTEMA FIEP / PAINEL DE INDICADORES DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE CURITIBA (PIMCC). Emergência climática e a escalada dos eventos extremos: o que as ondas de calor na Europa indicam sobre o futuro do clima global. Disponível em: https://paineldemudancasclimaticas.org.br/noticia/escalada-eventos-extremos-europa. Acesso em: dd/mm/aaaa.
#MudançasClimáticas #ClimateChange #OndasDeCalor #Heatwave #EventosExtremos #CalorExtremo #IncêndiosFlorestais #Seca
Fontes consultadas
ACHI, C.; PINEDO, E.; ARMELLINI, A./REUTERS. France shuts schools, Italy limits work outdoors in 'exceptional' European heatwave. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/climate-energy/france-shuts-schools-heatwave-grips-europe-sea-off-spain-record-high-2025-07-01/. Acesso em: 16 jul. 2025.
CLIMAINFO. Calor extremo: incêndios forçam retirada de milhares de pessoas em ilha grega. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/07/03/calor-extremo-incendios-forcam-retirada-de-milhares-de-pessoas-em-ilha-grega/. Acesso em: 15 jul. 2025.
CLIMAINFO. Clima extremo: incêndios florestais no sul da França forçam fechamento de aeroporto. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/07/08/clima-extremo-incendios-florestais-no-sul-da-franca-forcam-fechamento-de-aeroporto/. Acesso em: 15 jul. 2025.
CLIMAINFO. Estiagem se espalha pela Inglaterra com ano mais seco desde 1976 e calor recorde em junho. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/07/15/estiagem-se-espalha-pela-inglaterra-com-ano-mais-seco-desde-1976-e-calor-recorde-em-junho/. Acesso em: 16 jul. 2025.
CLIMAINFO. Ondas de calor extremo colocam junho como o mais quente da história na Europa Ocidental. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/07/13/ondas-de-calor-extremo-colocam-junho-como-o-mais-quente-da-historia-na-europa-ocidental/. Acesso em: 15 jul. 2025.
CLIMAINFO. Tempestades e inundações causam estragos em mais da metade da Espanha. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/07/14/tempestades-e-inundacoes-causam-estragos-em-mais-da-metade-da-espanha/. Acesso em: 15 jul. 2025.
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